Relato crítico: Felipe Machado


Relato crítico: Felipe Machado


Seminário Bordas do Corpo

Mesa 3: Insurreições do corpo no contemporâneo

Peter Pál Pelbart (SP), Ana Kiffer (RJ), Jorge Vasconcellos (RJ), Tatiana Roque (RJ)

Mediação: Silvia Soter

As estratégias do capitalismo neoliberal e possíveis táticas de resistência e contra-hegemonia na contemporaneidade podem ser delineados como os eixos temáticos que guiaram as falas na terceira mesa do Seminário Bordas do Corpo: dança política e experimentação, Insurreições do corpo no contemporâneo, composta pelas professoras Ana Kiffer e Tatiana Roque, pelos professores Jorge Vasconcelos e Peter Pal Pelbart e com a mediação de Silvia Soter. Apesar de não versarem explicitamente sobre dança, o corpo em movimento apareceu de diferentes maneiras, com contornos e coreografias distintas, seja como instância controlável, ou como aquela que inevitavelmente escapa ao controle. Os entrelaces e as conexões entre corpo social e corpo individual se daria na imensa rede que os fluxos do capitalismo movimentam, como analisaram Gilles Deleuze e Félix Guattari no trabalho conjunto sobre Capitalismo e Esquizofrenia, o qual, explicitamente ou não, transpassou os discursos levantados.

Ana Kiffer abriu os caminhos do debate com uma epígrafe para cada um dos demais professores que dialogavam com as respectivas falas. Para Tatiana Roque, um trecho de François Châtelet sobre as recapturas perpetradas pelos poderes institucionais do Estado, e para Jorge Vasconcelos e Peter Pal Pelbart, duas citações de Antonin Artaud sobre modos de resistência – e existência (nos âmbitos coletivo e individual).

Tatiana Roque abordou a releitura à qual tem se dedicado o filósofo italiano Maurizio Lazzarato acerca do pensamento de Deleuze e Guattari e, particularmente, dos escritos de Guattari fora da parceria com Deleuze. Essa releitura procura dar conta de uma análise do atual estágio do capitalismo, dos reagenciamentos que efetua, as formas como se desdobra e captura os movimentos e as tentativas de produzir resistências; assim, mostra-se importante sobretudo na busca de novas ferramentas teóricas para diagnosticar o presente. No caso do Brasil, segundo Tatiana, o pensamento de Lazzarato teria muito a contribuir para se entender o momento presente e criar possibilidades de resistência, potencializando o efeito conturbador da irrupção recente de manifestações e protestos que tomaram o espaço público. Ela afirma que não se trata, como tornou-se usual argumentar, de um recrudescimento da ditadura militar na repressão violenta protagonizada pela Polícia Militar a tais manifestações, mas, antes, de uma reação inerente ao sistema neoliberal mesmo, que reflete uma forte recusa em reconhecer seu fracasso.

Para Tatiana, a principal questão que surge nesse contexto é pensar como se articulam, hoje, capitalismo e produção de subjetividade. Ela lembra que o princípio de que a produção de riqueza depende de uma atividade subjetiva abstrata já estava presente em Marx. Esta subjetividade, por sua vez, seria irredutível ao domínio da representação (tanto política quanto linguística). É precisamente essa concepção que é atualizada na produção teórico-crítica de Deleuze e Guattari e, mais recentemente, de Lazzarato.

Nesse sentido, Lazzarato propõe, a partir de Guattari, que o capitalismo opera, atualmente, no cruzamento entre dois dispositivos de poder: o de assujeitamento ou sujeição social e um mecanismo de servidão maquínica. O primeiro funciona ao produzir uma percepção de que nos equipamos de uma subjetividade individual que nos assigna uma identidade composta por categorias como sexo, profissão, raça, classe social e nacionalidade, operando uma distribuição de papeis na divisão social do trabalho para além das categorias opositivas de operário e proprietário dos meios de produção. Os papeis sociais, bem como as identidades, são produtivos por si mesmos na medida em que supõe-se que se estabeleçam “enquanto tais”.

Tal mecanismo torna-se evidente ao notar-se que, na inserção ao mercado de trabalho e nas formas de emancipação econômica do sistema neoliberal, o capital humano é imprescindível, acionando a necessidade dos indivíduos tornarem-se “empresários de si”, nos termos usados por Tatiana. A essência subjetiva da produção, nesse contexto, é a conjugação entre a força de trabalho e o trabalho sobre si.

Através e a partir das funções sociais e das identidades (que podem se dar para além ou aquém dessas funções), o sistema econômico e político capitalista opera, no tecido social, uma homogeneização, uma uniformização e uma centralização de códigos semióticos como as línguas e os gestos. Nesse sentido, nota-se como o corpo é o ponto de aplicação primordial desses processos, especialmente no controle dos hábitos e gestos que devem inserir-se em repertórios de linguagem determinados – o que estaria compreendido nas noções de biopoder e biopolítica propostas por Michel Foucault.

Tatiana aponta essa engrenagem como uma “fábrica semiótica” em que os trabalhadores devem adaptar-se às condições de poder: a aceitação (em grande parte) inconsciente dos papéis e das identidades é justamente o modo como se introjeta essa exigência do capitalismo. Essas identidades aparecem como significações dominantes: “mediações semióticas a partir das quais o capitalismo garante uma condição geral de trocas e de intercâmbio de papeis que funciona como uma moeda”.

Pode-se apontar esse aspecto como a razão pela qual até os desvios precisam ser calculados: ao mesmo tempo controlados e incitados a mostrarem-se, de modo a impedir, ao máximo, as consequências que seriam libertadoras e emancipadoras dos mecanismos de assujeitamento.

O segundo aspecto ou dispositivo pelo qual o capitalismo atua na produção de subjetividade, denominado por Guattari como servidão maquínica, servomecanismo ou servo-controle maquínico, é oriundo da área de engenharia do controle e da automação. O termo em francês, “asservissement”, refere-se tanto à ideia de tornar servo quanto a um sistema de regulação de entrada e saída por um mecanismo de retroalimentação, recurso de grande importância na cibernética. A eficácia de mecanismos como esse se dá por atuarem em uma dimensão ou âmbito pré-individual, infrapessoal, ou protossubjetivo, em que ainda não há uma subjetividade individuada ou uma distinção entre os elementos de um acoplamento humano–máquina, como é característico do capitalismo contemporâneo (vide a relação com aparelhos eletrônicos como o celular).

Nesse sentido, o mecanismo de servo-controle funciona por meio de uma dessubjetivação em que o indivíduo torna-se uma peça em uma engrenagem, componente de um agenciamento institucional que autorregula o capitalismo, tal como em um processo de retroalimentação.

A busca de termos em áreas distintas do saber (como a engenharia, a biologia, a medicina) que faz a ideia de “máquina” recorrente em Guattari e Deleuze, dá a ver a estratégia ou tática teórico-crítica operada nesse pensamento que recoloca e revê a tradição filosófica diante de novos problemas e da necessidade de novos conceitos.

Percebe-se o efeito desse “híbrido” entre humano e máquina, gerado pelos agenciamentos maquínicos, na proliferação de mecanismos de avaliação, característica de uma relação pré-individual com a máquina. De onde a dificuldade de enxergar e criar resistências a essas engrenagens pré-individuais, a esses diagramas e configurações em que as coisas e os elementos sociais são peças, engrenagens, uma vez que esses mecanismos solicitam, incitam, favorecem certas ações, certos gestos e pensamentos em detrimento de outros, afetando diretamente no comportamento afetivo, cognitivo e perceptivo dos indivíduos.

Assim, a articulação entre essas duas dimensões heterogêneas da subjetividade, individual e pré-individual (maquínica) é imprescindível à noção de propriedade – e, uma vez compreendido isso, a ideia de que “temos” um corpo entra em questão e pode ser desfeita: “talvez”, coloca Tatiana, “o corpo seja o corpo do mundo, e não o nosso”.

Portanto, a necessidade de se pensar um novo modo de ação política talvez passe por outra concepção de corpo que não se restrinja à noção de propriedade, devendo operar, ao mesmo tempo, contra esses dois dispositivos de controle das subjetividades para que se possa construir novos territórios existenciais apropriando-se desses agenciamentos maquínicos para além do servo-controle que os submete ao assujeitamento social e que esvazia a potência micropolítica. Não se deve ignorar, porém, o risco de que o capitalismo também se reaproprie dessas formas de resistência.

Nos debates subsequentes, Peter Pal Pelbart chamou a atenção para o fato de que esses movimentos de resistência, desterritorialização ou ações políticas nem sempre seriam resultado, necessariamente, de mobilizações, movimentos, mas também de desmobilizações, de suspensões do movimento. Afinal, seria preciso também sustar certa lógica do produtivismo da cultura capitalista. Nesse sentido, tais movimentos e suspensões se dariam de acordo com intensidades, necessidades e táticas específicas.

Dando sequência à fala de Tatiana, Jorge Vasconcelos buscou apontar uma das formas de resistência e contra-hegemonia que se têm produzido na cidade do Rio de Janeiro, os coletivos autonomistas de arte, como o ANARCOFUNK. Ele confessou lhe causar um grande incômodo ter de falar em um lugar como o Museu de Arte do Rio, uma vez que a construção do MAR se insere no processo de gentrificação da zona portuária que tem gerado graves consequências para a população local, tais como remoções e o aumento do custo de vida na região, que obriga muitos moradores a abandonarem-na (gerando, portanto, mais um espaço restrito a uma parcela privilegiada da população). Porém, Jorge partiu desse incômodo para falar, inclusive, de uma resistência a esse mesmo processo – a vivencia em comunidades anarquistas que criam atos de resistência de caráter estético-político.

Ele não se preocupou em determinar se o trabalho de tais coletivos é artístico, mas é certamente estético. Segundo Jorge, a partir das Jornadas de Junho, houve uma mudança ou inflexão nos atos de grupos como o ANARCOFUNK guiada por uma radicalização das ações diretas de caráter performativo. No entanto, ele mesmo questiona se um levantamento dos coletivos e das ações não seria uma espécie de “X9 acadêmico”, ao gerar recursos que podem abrir precedentes a possíveis capturas. Seria preciso, pois, resistir aos aparelhos de captura que o corpo da arte se colocou e ao empobrecimento da crítica que entra no sistema de retroalimentação, uma vez que essas ações mesmas se dão na contramão desse apaziguamento da crítica e da institucionalização da arte. Por outro lado, a investigação sobre esses coletivos talvez guarde sua importância justamente nisso, na busca de produzir contrapontos ou linhas de fuga aos aparelhos de captura da arte e ao empobrecimento da crítica.

Outro ponto levantado por Jorge diante desse cenário é um questionamento sobre as consequências de se descartar as instituições quando elas já são frágeis (como a arte e a crítica no Brasil). Como lidar, portanto, com essa tensão? Para ele, sua posição enquanto professor e enquanto crítico é precisamente a de fustigar esse fazer institucionalizado. Dando a ver as aberturas, as fissuras, talvez seja possível esse movimento, essas transformações, ou, nas palavras de Jorge, a criação de novas formas de sociabilidade. “É preciso ir para a rua, e ir para a rua é sair da Zona Sul, se desencastelar”, afirmou posteriormente, no debate, referindo-se ao modo como essa região acaba tornando-se o foco (um tanto elitizado e restrito) tanto da vida cultural no Rio de Janeiro quanto da crítica cultural e artística.

Se Tatiana Roque dedicou-se a uma espécie de mapeamento do capitalismo contemporâneo e suas transformações, tanto Jorge Vasconcelos quanto Peter Pal Pelbart privilegiaram o que foge, o que escapa ao controle das instituições e torna-se difícil de apreender. Assim, Peter recorreu ao pensamento de Beatriz Preciado, filósofa espanhola que recentemente assumiu o nome de Beto após um processo de transformação corporal autogerado pelo uso da testosterona em gel, ou “testogel”, como é chamada comercialmente (e cuja comercialização, aliás, é controlada e restringida pelo âmbito médico), empurrando o próprio corpo (ou isto que se entende como um corpo “próprio”) a um limite das categorias de gênero e sexo (masculino e feminino) através das próprias ferramentas de controle e produção de corpos normalizados.

Em Testo Yonqui, escrita híbrida entre diário, relato autobiográfico e produção teórica, Preciado relata a experiência de criar táticas de resistência às normas do sistema sexo-capital da modernidade cuja colonização dos corpos funciona pela naturalização das diferenças de sexo e gênero segundo uma concepção biológica do corpo, tanto a nível orgânico-fisiológico quanto genético.

Assim, coloca-se não só como resistência, mas também como linha de fuga ao corpo, nas palavras de Peter, que não aguenta mais tudo aquilo que o define ou constitui por fora e por dentro, isto é, ao adestramento e à disciplina perpetrados pelo sistema capitalista e inerentes a um saber médico-científico que ganhou vulto na modernidade. Porém, como lembrou, esse saber se insere em um histórico mais amplo de culpabilização e patologização do corpo que remonta à cultura cristã.

Na linha de pensamento nietzscheana de que um corpo é, primeiramente, um encontro com outros corpo, Peter propõe que se busque a força das fraquezas do corpo, ao invés de buscar as fraquezas das forças do corpo (ou, poderia-se dizer, ainda, do próprio corpo como força), extraindo-se, da impotência, potências superiores, ou tornar ativo o corpo a partir das passividades que o constituem. Tal seria, de fato, uma economia outra da dor e da impotência, outra relação da physis com o pathos para além da assepsia da cultura capitalista moderna.

Assim, o regime farmacopornográfico a que se refere Preciado permite uma molecularização do biopoder que age sobre o corpo tecnovivo: um “controle pop” em contraponto ao controle frio analisado por Foucault. É assim que Preciado vê a pílula anticoncepcional como um “panóptico comestível”. De maneira análoga, o testogel funcionaria como uma regulação farmacológica para manter a fronteira entre os gêneros, o que Preciado subverte com uma ação do que chama de “bioterrorismo de gênero”, isto é, o uso dos recursos médicos normalizadores para a desestabilização dos limites de gênero. Um movimento farmacopornográfico copyleft que torna o corpo uma plataforma, um biocampo tecnovivo que arranca os gêneros dos macrodiscursos, desterritorializa os corpos, em contraponto (ou, antes, como um desvio, uma interferência) à naturalização dos biocorpos como, por exemplo, das biomulheres, no uso da pílula anticoncepcional e na reposição hormonal.

A esse respeito, Silvia Soter lembrou a cantora Valesca Popozuda como um processo de automodificação corporal também pela testosterona, na produção de um corpo feminino que tampouco se pode dizer “natural” ou “biológico”. Essa observação faz notar que não se pode determinar uma única heteronormatividade (seriam várias? Ou a interferência na heteronorma não se dá apenas por corpos queer?).

Dialogando com a fala de Tatiana Roque, Peter coloca que isso consistiria, de fato, em um processo de desidentificação ou dessubjetivação ativa na contramão dos agenciamentos maquínicos – ou seja, não uma dessubjetivação produzida pelos dispositivos de poder, mas uma  resposta aos processos de assujeitamento ou sujeição social e à servidão maquínica em que somos inevitavelmente inseridos. A tática desenvolvida por Preciado seria, segundo Peter, a conjunção de experimentação e pensamento numa espécie de “psicodelia hedonista molecular”. Para ele, “Preciado mostra como ainda não vimos nada”.

Encerrando a fala que lhe coube, lembrou o dançarino butô Min Tanaka, por quem Guattari nutria grande admiração e encanto e que, através da dança, fazia, segundo Peter, do corpo individual, “um corpo multitudinal e telúrico”. Assim, ele vê a dança como um campo potente para mostrar que “ainda não vimos nada”.

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