Relato crítico: Eliane Carvalho


Relato crítico: Eliane Carvalho


Seminário Bordas do Corpo 

Mesa 2: Cena, Livro, Corpo: encontros, desvios e tensões entre dança e escrita.

Participantes: Alex Cassal, Thereza Rocha, Laura Erber, Mariana Patrício

Mediação: Beatriz Cerbino

A palavra abre uma fresta no corpo ou o corpo abre uma fresta na palavra?

Nesta mesa redonda a relação corpo e palavra foi abordada a partir de diversos prismas, trazendo variados enfoques singulares para a relação corpo/palavra. Através de cada fala vislumbramos infinitas possibilidades na qual esta relação pode ser abordada, vivida e experimentada. Duas palavras surgem para falar desta mesa: pluralidade e multiplicidade. Seguindo o percurso de cada um, pudemos encontrar caminhos díspares e particulares dentro da temática, ficando a sensação de que a curadoria possibilitou um grande encontro.

A mesa foi composta por Thereza Rocha, Laura Erber, Alex Cassal, Mariana Patrício, e Beatriz Cerbino como mediadora.

Com Thereza Rocha foi possível brincar, surfar e passear entre a dança e a filosofia; encontrando pelo caminho, como Thereza nos sugeriu,  brinquedos do pensamento, palavras-catapulta e palavras-estalinho. Pode-se dizer que este passeio foi uma experiência de uma espécie de dança-palestra-pensamento.

Em uma fala plena de afetos, Thereza nos mostrou precisão cirúrgica. Começou falando sobre a importância de pequenos encontros: “ Pra começar eu queria dizer que a gente tem cumplicidades, e que elas vão se desdobrando, e isso é muito bom”. Desde o princípio estabeleceu um elo afetivo que foi permeando toda a sua fala, sempre abrindo espaço para a relação, para o encontro. Ao mesmo tempo, desenhou seus percursos com precisão, convidando a plateia à percorrer em estado de dança as veredas de seus conceitos.

Thereza revelou sua dificuldade para começos, talvez porque sua natureza seja a do fluxo, e começou novamente; agora contando a história do pequeno Arthur, que, ao confrontar sua mãe com a pergunta “se misturar água suja com água limpa, a água fica suja ou fica limpa?”, novamente convida a audiência à abertura para uma experiência de encontro.

Thereza nomeia sua fala de palestra corpo-ensaio-começo, desde de o início fazendo um manifesto do não; negando desde a base tudo que seja exterior, virtuoso, que esteja do lado de fora e que apenas fabrique uma representação. Apresenta esse não como uma atitude política, como foi feito há muitos anos pela coreógrafa Yvonne Rainer. Sobre essa atitude política diz:

“Recusar o começo, a introdução, o a priori, a apresentação dos pressupostos, recusar também a evidência e o inequívoco de qualquer noção categoria, conceito, em suma de qualquer nome, inclusive do nome corpo, contrário fazer do corpo a melhor oportunidade de criar um duplo sem semelhança, privilegiar a disjunção, ou como sugere Roberto Machado, o acordo discordante. Não seria isso também o encontro, a cooperação, a mutualidade, o corpo é uma política, o corpo é a política do encontro.”

Rocha fala do desejo de estabelecer uma relação eu-tu. Exemplifica falando que para aquele que vive com o outro e em relação, não existe o si, muito menos o si mesmo; e sim, existe conversa. Para ela, o corpo é encontro: “O corpo não é exemplo, assunto, ou objeto da fala do pensamento, do espetáculo do texto. O corpo é uma boa hipótese do encontro”.

É justamente esse convite ao encontro que é feito por Thereza em seus começos, e em todo o percurso-dança da sua fala. Ela propõe uma brincadeira neste contexto das palavras-chave, transformando-as em palavras provocação, palavras catapulta, palavras estalinho; dando a palavra o poder de reinventar, criar e instaurar novos espaços de relação. Traz uma discussão que gira em torno da expressão dança conceitual, que de alguma maneira é muito usada para nomear uma dança que não dança, uma dança menor, uma dança sem movimento. Neste sentido, apresenta uma justaposição de ação e conceito que interessa a ambiguidade revelada na expressão Dança Conceitual. Neste contexto de ambiguidade nomear tanto pode ser captura, quanto ativação, passagem, processo, ação do conceito. Thereza nos diz que é preciso: “marcar a carne do conceito com a sua tatuagem de risco”.

Falando de uma poética do pensamento, ela aponta para a direção de uma poiésis que fabrica o conceito. Fala de perguntas mundo que se fizeram perguntas corpo. Diz:

“O pensamento é uma intensificação, manejo inteligente, ponto de ambiguidade. Não é dança, mas também não deixa de ser. É com palavras a minha ação, buscar uma performance do texto, buscar um tempo de performance do conceito, tensão entre a escritura do corpo e o ensaio filosófico, objetos que performam o discurso, o corpo como problema da escrita, o corpo como pergunta da escrita, única medida que me cabe na postura política que tomo e sempre tomei diante da teoria, como constituir uma escrita corpo, escrever em corpo. O corpo não é palavra chave nem exemplo. O texto em corpo e o corpo em texto, deixar o corpo corroer o texto. O pensador faz de si mesmo a carne da experiência conceitual. Dramaturgia do encontro”.

A fala da Thereza Rocha foi um rio caudaloso de imanência, fluxo e devir. Foi possível sentir essa pulsão, esse desejo, essa paixão, que produz incessantemente novos agenciamentos, novos encontros, e a emergência pulsante para o novo. Como disse: “Uma dança, uma vida, imanência, uma dança…”

Laura Erber nos trouxe a perspectiva de uma relação entre as artes. E da complexidade sutil que seria uma arte gestar, fecundar e engendrar a outra. Ao longo da sua fala foi possível perceber a possibilidade de novas aproximações, novas percepções, novas conexões, e desta forma abrir caminho para a recriação, ou seja, para novos encontros e novos olhares. O teatro, a animação e os sonhos vistos a partir de novos ângulos, abrindo novas perspectivas de entrelaçamento dentro deste encontro.

Laura nomeou sua fala como Kafka sonhou animações, mas também poderia ser o teatro sonhou animações. Seu desejo foi o de pensar a possibilidade de gestação de uma arte por outra. Uma arte que engendra outra para repensar o próprio modo de abordar a animação. Perceber aproximações tal como nos sonhos e nos desenhos animados onde as substâncias alteram-se quase alquimicamente e os  limites e bordas do corpo são ultrapassados.

O desafio apresenta-se na tentativa de colocar essas transfusões criativas em diferentes níveis de relação, em uma estratégia de pensamento. Dentro deste contexto Laura pergunta: “de que maneira as relações internas ao campo artístico poderiam perturbar a própria ideia moderna de arte, com a sua cronologia e cronotipia de linguagens cada vez mais autossuficientes da sua especificidade? ”

Ela busca inspiração nos desenhos animados para repensar a própria arte da animação. Realiza uma pesquisa que vai desde o primeiro desenho animado junto com as primeiras definições que foram surgindo para a animação, mesmo lá já é possível perceber que há uma plasticidade do corpo em movimento. Estes desenhos tem a capacidade de perturbar a  anatomia, jogando com as bordas do corpo, esticando o braço e voltando, sofrendo violência e depois ficando bom. Para Laura há um interesse em pensar a ideia de limites do corpo.

A vontade de pensar os limites do corpo e liberar a potência do gesto para repensar envelopes físicos já existia muito antes do surgimento da animação. Esse pensamento voltado para o corpo ganhou relevância com vários pensadores do teatro. Foi possível vislumbrar como, na história do Teatro, o corpo foi ganhando uma centralidade e uma importância passando a ser estudado por muitos pesquisadores e teóricos que em sua maioria eram atores e diretores.

Um mergulho feito na teoria do teatro trouxe de volta os textos e sonhos de Kafka. Através de anotações nos diários, dos sonhos, e das visões, Kafka produziu uma série de imagens oníricas que relacionam-se com o desenho animado como uma forma de escrita da vida.

Laura propôs uma releitura das artes modernas na emergência da imagem-movimento, do teatro, da animação e dos sonhos como uma espécie de campo de produção de visualidade. Nos ajuda colocarmos em evidência o contraste entre as práticas artísticas de um discurso político hegemônico baseado na estrutura dicotômica (dividido entre arte x entretenimento, cinema x teatro, artes da cena x artes da imagem) e a historiografia da arte moderna de visão estrutural.

Na fala de Alex Cassal a palavra aparece com toda força, com todo o brilho, e a todo momento ela é requisitada para mostrar a sua potência, sua capacidade de instaurar lugares, criar coisas, percepções, (ou de até matar…).  Com Alex pudemos perceber a força que a palavra instaura, a força que a linguagem estabelece, e a possibilidade linda de jogar, alterar,  e brincar com esse poder. Sobre a força das palavras Alex disse: “ As palavras tem poder, tem o poder da poesia, ou do rótulo, o poder de abrir ou encerrar significados”.

Com uma fala eloquente e presente, próxima até, Alex buscou a intimidade que a palavra pode instaurar com uma série de exemplos de experiências que viveu e nas quais a palavra abriu novos espaços, encerrou significados – mostrando sua força e seu poder. Contou de um debate ocorrido logo após um espetáculo realizado no Dança Brasil, evento de dança que era realizado no Centro Cultural do Banco do Brasil há mais ou menos dez anos.  Este espetáculo foi feito pela Cia. Kaiowas, coreografado por Karina Barbi e tinha em seu cenário uma plotagem com imagens do Mondrian e vários velcros nas roupas e no cenário onde as bailarinas grudavam e se desgrudavam. Alex ressaltou a dissonância que houve entre a percepção do espetáculo por parte da coreógrafa e por parte do público. O cerne dessa dissonância estava no fato de que para a coreógrafa se tratava de um espetáculo abstrato, baseado na forma e na motricidade e para parte do público se tratava de um espetáculo que falava de gênero e de papéis sociais. Para a coreógrafa essa percepção do público era um ruído, uma espécie de resíduo, que culminou, como lembrou Alex, com um comentário de Denise Stutz que disse que para ela havia uma imagem que atravessava todo o espetáculo: a de mulheres “colando velcro”. Nesse momento, para aqueles que ali estavam, encerrou-se uma perspectiva. Aquele havia deixado de ser um espetáculo sobre Mondrian, passando a ser um espetáculo sobre colar o velcro. Esse exemplo mostra bem o poder que as palavras tem de criar e estabelecer novos significados.

Para ele, em sua trajetória, a palavra vem sempre antes do gesto, o que torna a sua relação especialmente interessante com a dança – onde é necessário dialogar com o lugar, com o território, e com o espaço da onde o gesto se origina. Para ele, é importante perceber quais são as tensões e fricções entre o gesto e a palavra: “As palavras estão presentes o tempo todo, elas estão presentes em um espetáculo de dança por mais que a gente mergulhe na materialidade do corpo, na materialidade do movimento, as palavras, elas vão entrar junto com os espectadores, vão estar presentes na sala do espetáculo antes mesmo do espetáculo começar. E com palavras que a gente explica pra gente mesmo ou para os outros o que estamos vendo, que a gente vai definir um espetáculo como potente, ou suave, ou lírico, os esquisito, ou estranho, um espetáculo ou movimentos que fazem parte de um espetáculo.”

Alex relata sobre um trabalho que realizou juntamente com a coreógrafa Dani Lima, ‘Falam as partes do todo”, e que ao final do processo de ensaio, foram feitos vários ensaios abertos ao público, porque justamente uma das questões levantadas pelo espetáculo era discutir o lugar do espectador, diante da obra de arte, ou mais especificamente, diante daquele espetáculo em questão.  Ele conta de um procedimento que foi experimentado durante o processo de ensaio, mas que não chegou ao espetáculo final. Tratava-se de produzir alguns papéis com a descrição de vários espetáculos de dança e de teatro colhidos de programas e releases,  e durante os ensaios, esses papéis eram entregues aos espectadores, como a descrição daquele espetáculo. O que revelou-se como curioso era que de  um modo geral as pessoas que assistiam o ensaio e recebiam os papéis, acreditavam que de fato essas frases, esses comentários, se referiam a cena que eles estavam assistindo, mesmo quando recebiam vários papéis com ações contraditórias, as pessoas encaixavam o que estavam assistindo com aquela descrição. Esse procedimento não ficou no espetáculo, talvez porque encerrava mas do que abria possibilidades.

O espetáculo está sempre restrito as escolhas de quem o faz, indícios que os espectadores vão seguir, sempre tem a liberdade de ver outra coisa, como o velcro no lugar do Mondrian. Podem também ser escolhas que abrem para outras múltiplas escolhas. Mas nada se move sem referências. A gente sempre está falando de algum lugar.

Em um determinado momento de sua fala, faz um  gesto de apontar na direção de uma das pessoas da audiência, e tece uma sequência de comentários como: “que neste momento, onde alguém aponta, espera-se uma sequência de ações e reações. Posso falar você é pedófila, pedólatra, você é pediatra, você é pedicure, você é pedestre, anônimo, liberdade e vida. Pensamento que surgiu lendo a matéria, sobre a capacidade que a palavra tem de abrir e encerrar portas, ideias, significados, inclusive vidas, como no caso da matéria da mulher linchada, relato do caso. Morreu porque um grupo de pessoas pensou que era ela naquela imagem, que ela era uma bruxa, e que bruxas existem e podem ser mortas.” Ao apontar alguém da plateia e falar várias palavras com significados muito distintos – embora parecidas na grafia – Alex propôs um jogo onde fomos testemunhas do poder da palavra , relatando um caso extremo onde a palavra levou ao linchamento.

Alex terminou acentuando o poder das palavras da mesma forma que começou, ressaltando a reverberação que elas pode produzir em nós: “A linguagem não é neutra, mesmo quando é isso que queremos que ela seja, a palavra e seus significados, ela tem a capacidade adaptativa e replicativa dos vírus que invade os lugares estéreis que contamina tecidos. A palavra continua contaminando, mesmo quando a gente para de falar, mesmo quando a gente diz que é o fim…”

Um pouco antes de passar a fala para Mariana, Beatriz Cerbino apontou alguns pontos de convergência dos pensamentos até então expostos. Beatriz traz o conceito de corpo paradoxal do filósofo José Gil como uma possibilidade de caminho para se pensar esse corpo que, para além da sua possibilidade de construir-se para além da própria pele, para além da sua materialidade, também pode ser pensado como um corpo imagem. O corpo como um texto-imagem, o movimento que constrói sentido via a imagem que ele constrói a partir do seu próprio movimento. Essa possibilidade de em todas as mesas abrir discussões e espaços de pensamentos, para não parar sempre neste espaço de cisão, onde o pensamento está alinhado com a ideia de que a construção de sentido tivesse que estar fora do corpo. A partir destes encontros e destas aberturas para novos espaços de pensamento é possível pensar em todos nós como um corpo político.

Mariana Patrício manifesta sua alegria com o percurso das falas realizadas ao longo desta mesa, uma vez que, seu desejo ao pensar o encontro desta mesa, foi o de repensar a relação da dança e da escrita, entre a literatura e dança. Relação esta que se estabeleceu sobretudo na Literatura Moderna e que teve esse lugar da dança exercendo um fascínio sobre a linguagem, como uma força que escapa a representação. Escritores  como Mallarmé, Nietzsche e Paul Valéry se debruçaram sobre a dança, como essa possibilidade de uma força em movimento que pudesse escapar a representação.

Fazendo um link com a bruxaria abordada pelo Alex, Mariana discorre sobre Mallarmé e sua fascinação pela figura de Salomé. A questão central apontada por Mariana é a dança que a princípio não significa nada, não representa nada, mas que é capaz de colocar a estrutura da representação do poder em jogo. Quando Salomé pede a cabeça de João Batista em troca de sua dança – pela qual o Rei havia oferecido qualquer coisa – revela-se esse fascínio estabelecido pela dança. No final, o Rei mata João Batista e logo em seguida Salomé. De outra forma, haveria ocorrido um colapso na representação do poder, e, para restabelecer o equilíbrio, o fascínio acaba por fortalecer ainda mais o poder real.

É justamente a dança a partir deste ponto de vista do fascínio de algo que sempre escapa a representação, que muitas dicotomias são mantidas e podem surgir, tais como as que foram mencionadas hoje, entre o Mondrian e a “colação de velcro” como falou o Alex; a tentativa de furar esse guarda-chuva conceitual como disse a Thereza ou ainda esse engendramento, nessa gestação de uma força significativa sobre uma matéria que não nomeia, como nos trouxe Laura.

Mariana termina ressaltando a importância desta articulação, onde a dança se apropria da linguagem não para tomar o poder mas para repensar a linguagem e o corpo fora destas dicotomias. Ao final de sua fala, mostrou imagens de mulheres bruxas: Salomé, La Ribot, Micheline Torres, Yvonne Rainer e Valeska Popozuda.

No começo deste relatório foi colocada uma pergunta/provocação que indaga a relação do corpo e da palavra – a palavra abre uma fresta no corpo ou o corpo abre uma fresta na palavra? Com todas essa falas pode-se dizer que estes caminhos são infinitos e que podem estabelecer-se de muitas formas. São múltiplos agenciamentos que abrem espaço para a emergência e para o devir.

 

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