Relato Crítico: Dally Schwarz


Relato Crítico: Dally Schwarz


Seminário Bordas do Corpo

Mesa 1: Corpo e dança: conjunções e disjunções

Participantes: Flavia Meireles (RJ), Ligia Tourinho (RJ), Sandra Meyer (SC) e Hélia Borges (RJ)

Mediação: Paola Braga (RJ)

Contra-Escrita: disjunções e conjunções

Começamos pelo fim, para propor um contra-começo, a partir da poesia de Paulo Leminski lida por Sandra Meyer.

Contra-Narciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

Para pensar nas conjunções e disjunções do corpo político na dança, abre-se uma mesa em um seminário no contexto de um grupo de pesquisa. A mesa leva o nome da proposta, o seminário Bordas do Corpo e o grupo de Pesquisa se chama Temas de Dança. É importante fazer esse caminho para podermos abrir a escrita, como quem lê uma receita para abrir uma massa, até que consigamos não mais usar cadernos de escrita, e façamos na prática, como algo já incorporado, assim como boas mãos fazem uma massa. A ideia dessa escrita, pós-mesa, que se deu a partir dos registros durante a mesa Corpo e Dança: Conjunções e Disjunções é exatamente partir da ideia do “contra” não somente como negação, mas também como algo de outra perspectiva, que cria um contra-campo e assim, amplia o espaço e as possibilidades de pensar, agir, ver e propor.

Então para fazer uma contra-escrita é preciso entende-la como tradução e recriação. Diferente da dança e da fala, acontece no pós e precisa agora criar alinhavo para dançar e falar no momento que for lida.  Nosso desafio será então fazer essa contra-escrita para recriar um acontecimento no Seminário Bordas do Corpo, durante a mesa de abertura Corpo e Dança: conjunções e disjunções.

Contra-corpos:

Flavia Meireles

Ligia Tourinho

Sandra Meyer

Hélia Borges

Na sala, os corpos preenchem as cadeiras, vazias, aos poucos a sala incorpora e vai ganhando camadas, espessuras para se formarem as dobras e assim…

.

..as bordas:

substantivo feminino Relativo à beirada, beira de qualquer superfície. Acabamento final ou parte final de algum objeto. Área que circunscreve ou limita algo e dentro da qual contém alguma coisa. Terreno que limita, que é rodeado por:

 

 

a) uma árvore

Vemos uma imagem de uma árvore dentro do auditório do Museu de Arte do Rio (MAR). Enquanto procuramos algo entre as folhagens, Flavia Meireles nos conta uma história:

Urutau – ave fantasma – durante o dia permanece imóvel, sobre um galho. Pertencente a família da coruja, a noite faz um canto melancólico. Urutau é a história de um homem, indígena que permaneceu algumas muitas horas em cima de uma árvore, sofrendo coação da polícia, quando foi violentamente retirado de sua casa, uma aldeia na cidade. Urutau não estava sozinho, junto dele, muitos outros indígenas que também foram desalojados injustamente pela polícia, junto deles manifestantes que também são índios, junto deles, todos nós”.

 

Contar histórias é um costume de muitas sociedades. Nós estamos um tanto quanto desabituados de ouvir histórias, estamos tão preocupados com verdades cientificamente comprovadas, que esquecemos os ensinamentos das histórias. E esquecemos também de levar a sério as histórias. Flavia contava uma história que aconteceu e continua a acontecer no Rio de Janeiro. E aconteceu em cima de uma árvore.

Aos poucos, na sala naquela imagem da árvore aparece um homem, um pássaro, um índio. O  bicho é um homem! Subir em árvores é crime? Nos perguntamos ao tentar entender que crime teria cometido o índio. Flavia conta que a polícia e os bombeiros não sabiam o que fazer para conter o ato guerreiro do homem “Já que subir na árvore não estava prescrito em nenhum lugar” como contava a bailarina e pesquisadora “Urutau não cometia crime nenhum, porém, os policiais impediam os manifestantes de darem comida e água para o índio resistir.”

No meio do caminho tinha uma aldeia, tinha uma aldeia no meio do caminho –  as palavras imprimem-se no espaço e Flavia continua contando sobre a aldeia na cidade. A aldeia aparece para a gente como um corpo estranho. O espaço da cidade não nos permite imaginar muitas aldeias. A imagem da aldeia poderia ser de uma rachadura no meio do asfalto, revelando a terra que (re)existe ali, a aldeia é um anticorpo que habita a cidade.

Como então pensar sobre esse anticorpo na cidade? Sobre esse outro corpo que habita essa cidade? O outro nunca existe” provoca Flavia e continua “a palavra índio se torna espinhosa, pois traz a tona o recalque, a violência” aponta a pesquisadora “misto de mitologia e exotismo, poucas vezes visto como um corpo concreto”. Ela conta que dentro da própria aldeia, existem divergências, “já é uma mistura. Alguns apoiam a construção da universidade, outros não” fala sobre um projeto da Aldeia Maracanã de criar uma universidade livre indígena.

Flavia nos traz a imagem da bailarina Yvonne Rainer, no ano de 1968 que dizia “Meu corpo é a realidade que resiste”. E nos faz pensar em silêncio: Que realidade está resistindo nesse momento no Rio de Janeiro? O que é então, meu corpo, nesse contexto?

Flavia nos propõe pensar o corpo e a dança como campo de experiências dessas resistências. Como construir uma passagem, um transito, na arte, usando o potencial crítico e criativo, a partir dessas experiências? Todos esses pensamentos são ativados na sala pelos questionamentos de Flavia. A artista e pesquisadora fala dos interesses dos contextos políticos, autobiográficos, psíquicos entre muitos outros que as pessoas normalmente não consideram “arte” para suas pesquisas em dança.

“Estou procurando as experiências que furam o corpo. Abrindo buracos para a relação. Essas experiências alimentam o corpo colocando-o numa zona de experimentação. Como a Aldeia maracanã alimenta meu corpo”

 

e relembra a fala de Peggy Phelan, pesquisadora crítica e feminista dos estudos da performance que propunha um pé na dança, como linguagem autônoma, e outro na não-dança.

 “é isso, joguei na roda!” (Flávia Meireles abrindo a roda de conversas)

 

 

 

b)  invisível e visível

Lígia Tourinho sensibilizada com a fala de Flavia Meireles também compartilhou sua experiência com a Aldeia Maracanã “Já que a gente escolheu se atravessar, e falar das experiências que furam e inscrevem no corpo também começo falando da aldeia que é um espaço especial”.

Entrando na roda e também se apropriando das histórias, relembrou dos seus encontros com a Aldeia, junto da amiga e artista Isabella Duvivier, que segundo Ligia, está bem envolvida com as questões e a ocupação da Aldeia Maracanã. A pesquisadora trouxe uma reflexão sobre os índígenas como uma imagem também dos não brancos e pobres.

 

“Talvez hoje eu esteja um pouco violenta, voltei a ler Artaud, sentir Artaud que fala muito sobre os índios, os taraumaras. Deleuze fala muito do corpo sem órgãos, toda sua teoria, mas eu conheço mais o Artaud” (provocou Ligia)

Queria falar muito do visível e o invisível – muito da minha vivência como professora na UFRJ, no curso de dança” Ligia relatou a experiência que realiza há um ano com os alunos do curso de graduação  fazendo o mapeamento dos espetáculos de dança na cidade do Rio de Janeiro. “Estamos tentando fazer alguma radiografia da dança no rio de janeiro, nesse tempo conseguimos mapear 240 espetáculos” Foi a partir desse número que a pesquisadora e seus alunos começaram a se questionar sobre suas fontes de pesquisa “Nossas fontes são espaços de divulgação: blogs e site. Paramos para refletir que nossa fonte não é tão democrática assim”. Fazendo o público pensar sobre os espaços que acontecem a dança e configuram um mapa que não da conta do Rio de Janeiro inteiro.

Ligia, então, trouxe a emergência de mapear as ações de dança e contou uma pequena história de uma vez que foi comprar um mapa do Rio de Janeiro

“Eu fui até um jornaleiro e pedi um mapa do Rio. Então o homem me falou: eu acho que você não vai gostar muito, e Isabela que estava junto comigo disse: acho que ela vai adorar. O mapa era feito nitidamente para turistas. Mostrando somente uma faceta da cidade, obviamente. O preço do mapa? 13, 49 reais, ou o valor em euros como aparecia a opção. Bem, pelo menos não tinha a opção em dolar! Já pode ser um avanço?” (brinca ironicamente Ligia)

A platétia pode ver o mapa em mãos. O mapa que muitas pessoas conhecem do Rio de Janeiro. Mas de que pessoas estamos falando? Ligia nos fez pensar sobre os corpos visíveis na dança e os invisíveis. Sobre os palcos visíveis e os invisíveis. Segundo a pesquisadora, o mapeamento que o seu projeto conseguiu fazer era maior do que os locais visíveis no mapa que rodava o auditório, o que mostrava que conseguia dar conta, pelo menos, um pouco do que se é invisível.

Mas como perceber o invisível com olhos tão treinados para não ver?

c) um corpo colonizado

“Lembrei de um relato dos alunos na universidade sobre uma experiência que tiveram na Europa… Me deu muita dor, ouvir o relato e pensar como a gente se coloca como colonizado diante das coisas.( Ligia nos conta fazendo ponte para a fala de Sandra Meyer)

 

Sandra Meyer na escuta de Ligia sobre o corpo colonizado falou desse corpo aberto (citou Agamben). Mas acredito que nem precisamos citar um teórico europeu para pensarmos sobre nossas experiências (distintas) de corpos colonizados. Ela retomou a ideia de borda, e antes de falar do corpo falou da ilha “Eu moro numa ilha. Muitas pessoas moram lá também. Essa ilha se chama Santa Catarina. Antes já se chamou Nossa Senhora do Desterro. Já teve o nome Anhatomirim (pequena ilha do diabo em língua tupi), um nome indígena. Se fizermos um mapeamento, temos heranças culturais negras e indígenas, apesar das pessoas não fazerem essa associação, pela ilha estar localizada no sul do país.”

 

A ilha, assim como a aldeia é um anticorpo no meio desse mapa, mal delimitado, que não costuma mostrar muito mais do que uma pequena parte branca, elitizada e colonizada. Então, podemos pensar que tanto a aldeia como a ilha nos parecem boas formas ou propostas de repensar nossa relação do corpo com a borda.

E para não esquecermos da temática do Seminário, aparece novamente a imagem da borda… Sandra faz uma leitura do que ela encontrou como definição mais interessante:

 

“Orla, beira, margem, território marginal, beira mar, extremidade.”

 

Sandra traz corpo aberto, corpo em relação. E fala do corpo fechado da umbanda (poderíamos pensar também no candomblé?), um corpo bem brasileiro segundo a pesquisadora. E o corpo que não se deixa colonizar, por que não? Aquele índio, em cima daquela árvore, se coloca em relação, contra.

Mas, então, retomamos as indagações de Flavia sobre que maneira é essa – intercultural – voltada para uma relação? Que corpo é esse em relação e em experimentação?

“Ocupa Árvore….ouvindo esse relato, penso aqui, como isso pode ter a ver com o que eu estou pensando sobre essas posturas do corpo éticas, políticas e de experimentação?” (fala Sandra, que diz também estar pensando junto com Agamben)

Como nos reinventamos? Questiona e traz a imagem da artista Micheline Torres com sua proposta de difusão desse corpolítico  latinoamericanoindegenanegro. E propõe também que é o artista que tem que “problemar”, problematizar, inventar problemas por meio dos trabalhos artísticos.

Precisamos lembrar de Oswald de Andrade: precisamos ser educados pelos mulatos, precisa mulatizar-se.( Seria então um Ciao Agamben?)

 

E ainda sobre essa questão falou sobre um novo trabalho da artista Adriana Varejão chamado Polvo que pesquisa tonalidades de cores da pele a partir da autodenominação das próprias pessoas. A artista perguntaria: Qual a cor da sua pele?

 

“Das 136 respostas: sapecada, encerada, morena jambo, cor de ouro, puxa pra branco, puxa pra negro, burro quando foge, fogoio. Então ela percebe que a cor na pintura é uma cor ficcional. Achei muito interessante que rompe com a ideia das 5 cores oficiais. Ela tenta chegar perto do que seriam essas cores”.

 

Eu me questiono quantas dessas 136 tonalidades de cores compõe meu mapa? E questiono quantas dessas 136 tonalidades compões não só as pinturas da artista, mas também seu mundo no campo ampliado. E acredito que para uma contra-escrita é importante se colocar. E proponho a todas pessoas que leem esse texto pensarem qual a palheta de cor desse mapa (corpolitico) brasileiro que cada um conhece?

d) uma costura

“Acho que vou aproveitar e fazer uma costura. A dança contemporânea sofre de um problema. Estava numa banca de qualificação essa semana com a discussão do ensino de dança e criação. Como é colocado de lado o estimulo a criar. Por conta de uma série de capturas que fazem um modelo pra produzir uma obra, um modelo. Destituição radical do que seria o pensamento da dança contemporânea.” (relata abrindo a fala e encerrando a mesa Hélia Borges)

Hélia traz elementos da psicanálise, filosofia e da arte para nessa sutura se problematizar esse corpo do bailarino e do artista. A pesquisadora nos coloca a questão: o que acontece na experiência estética que tem condições de liberar forças para atingir o sistema nervoso?

Fazendo ponte com as reflexões das falas anteriores Hélia também questiona como o corpo pode estar nesse estado político. Fazendo o exercício da reflexão lança questionamentos:

Que haja uma transmutação na minha cabeça para enxergar coisas que eu não via antes: Como nos inserimos nesse campo político e a produção dessa estética?

 

Pegando carona também com o pensamento de Agamben, com o pensamento do corpo sem órgãos de Deleuze E Guattarri e a fúria de Artaud se quetiona sobre o que seria esse aborto de existências negadas nesse mundo em que vivemos. Hélia quer dar espaço a expressão que foi colocado fora de uma visibilidade pelas forças de captura.

O ser que vem é um ser qualquer – cito Agamben. É o assim. Não pode ser de outra maneira. É aquilo que é. Quando você sai da contingência e do necessário Ou você não pode não ser (necessário) ou não pode ser (contingência)” ( radicaliza de forma muito coerente a pesquisadora)

Hélia nos coloca para pensar sobre o contemporâneo como “o que está no tempo, mas tem a visão do que se desloca no tempo, pois está na obscuridade. E pode-se produzir uma luz nessa obscuridade”.

Pensamos então, guiados pela pesquisadora em uma grande questão do qualquer e do assim: poder não não ser. Pertencimento a si. Você não pertence a nada. Fluxo. Campo de forças. Novos sentidos.  O poder não não ser. É sustentar sua impotência. A gente fracassa diante da impotência.

“Essa relação estética só se dá quando aquilo que eu manifesto faz emergir daquele que observa as marcas existenciais. Vou aqui trazer a psicanálise. Esse encontro – estético – vai desencadear um modo de fazer uma clínica. Combatendo a tendência aos ismos”

Hélia, com sua experiência clínica fala da relação da mãe com o bebê como um fazer vida, fazer estético. O cuidado materno são sensações corporais. Aquilo que interfere nele. Essas experiências não são conteudísticas, são marcas existenciais. Materiais de existências ativadas. Encontros estésicos. A proposta então da pesquisadora é aproximar da vida. Aproximar a arte da vida e a partir disso discutir estética, política e arte. Para ela a arte contemporânea privilegia esse campo.

“Não quero representar, quero manifestar esse algo, que me atravessa, que não tem um sentido senso comum prévio. Que se dá na relação com o observador”

O exercício então dessa costura de Hélia é o da negação. Não não poder para sair de uma lógica. O Estado teme a impotência. Sustentar a impotência vem como uma resistência a propor campos inaugurais. Então, ao retomar a imagem de Urutau no alto da árvore

“Não tinha lugar nenhum que dissesse que esse lugar não poderia ser habitado”

Então, ficamos pensando: quais lugares que o estado não chega? Quais lugares o corpo pode chegar que o Estado não chega? Seriam as bordas?

e) por outras bordas

“ Temos vivido perda de espaço, perda de representação. Perdemos espaço no Rio de Janeiro e no Estado. Como até que ponto a estrutura da OS é libertadora ou não. E como as ocupações dos teatros estão sendo diálogos ou novas autoridade? Contratos de ocupação da prefeitura foram todos renovados. Quais as políticas que estão sendo feitas. Entendendo que a prefeitura e o governo do Estado são uma estrutura com lideranças móveis. A figura do boneco nos causa constrangimento. Os fatos tem me comovido. A  Universidade Federal é um espaço de resistência. Espaço que contempla uma diversidade de alunos” ( Reclama Ligia Tourinho)

 

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