Relato crítico: Clarisse Zarvos


Relato crítico: Clarisse Zarvos


Seminário Bordas do Corpo

Mesa 3: Insurreições do corpo no contemporâneo

Peter Pál Pelbart (SP), Ana Kiffer (RJ), Jorge Vasconcellos (RJ), Tatiana Roque (RJ)

Mediação: Silvia Soter

Corpo e política são noções indissociáveis. Posturas, padrões, tendências e gestos se constituem e se desfazem, a partir do atravessamento de diversos vetores sociais, políticos, econômicos e culturais. Os corpos só existem a partir de um emaranhado de relações entre corpos, sejam eles individuais e/ou coletivos. Um corpo, ainda que defenda uma identidade, nunca se encerra nele próprio. Seu estado é sempre de passagem por diferentes formas, afetos, movimentos, espaços e tempos. Os corpos podem responder em adesão às forças que lhe tocam, mas também podem transgredi-las. Contra que forças os corpos se rebelam? O que nossos corpos não aguentam mais? De que maneira se operam essas insurreições do corpo? Uma insurreição é sempre uma negação? Que novas ferramentas se tornam necessárias para que possamos tentar compreender aquilo que nos atravessa? É possível diagnosticar o presente em que se vive? De que maneira?

Ana Kiffer (RJ) abre a mesa Insurreições do Corpo no Contemporâneo com uma epígrafe de François Châtelet. Nesta citação, o autor analisa um aspecto perturbador em determinadas insurreições engendradas pela miséria física e moral, como por exemplo, as ações revolucionárias na França em 1789, ou as intervenções operárias e nacionais do século XIX. Trata-se de movimentos e migrações que se articulam no interior das mesmas sociedades que formam os indivíduos sobre os seus limites. Movimentos cujas ações buscam por maior espaço. Nessa direção expansiva, os envolvidos não deixam de introduzir a sua força para imprensar e captar novos movimentos felizes e pulsantes, movimentos diferentes dos seus, “transformando-os em negócio e se possível, em negócio de Estado”[1]. Desse modo, uma vez alcançado o lugar de poder, recomeçam as matanças e renascem as instituições ou, nas palavras de Châtelet: “os meios de domesticação de massacres lentos”. Mas será que o destino de toda revolução é instaurar um modelo, ainda que outro, de uma instituição opressora? Existe sempre uma revolução a se fazer? Sob que pontos de vista, para além da esfera social, pode se operar uma revolução?  Ana Kiffer coloca: em que medida a revolução é uma “viagem infinita”[2] sempre em confronto com aquilo que há de “monstruoso e insuportável”[3] no presente da vida?

Tatiana Roque (RJ) inicia sua fala identificando o impacto dos acontecimentos políticos de junho de 2013, no Brasil, e a necessidade de se criar novas formas de pensar e fazer política. Neste momento de tamanha potência, renovação e de uma coletivização talvez inédita na história mais recente do país, os antigos modos de movimento e organização política, como os sindicatos ou os partidos, se mostraram desgastados ou pouco potentes. Há uma urgência na reflexão e na criação de outras formas de organização e de movimento. E para isso é preciso que se estabeleçam novos diagnósticos, novas ferramentas reflexivas para debruçar-se sobre o presente, para tentar compreender quais tipo de agenciamentos são produzidos pelo capitalismo e como o capitalismo se apropria deles e os devora.

Amparada por leituras do filósofo italiano Maurizio Lazzarato e de algum modo influenciada por Deleuze e Guattarri, Tatiana Roque segue com a seguinte questão: de que maneira capitalismo e produção de subjetividade se articulam? Afinal de contas, a produção de riqueza depende da subjetividade de uma dimensão abstrata, que é submetida ao domínio da representação (política ou linguística). Atualmente, isto se torna mais claro no cruzamento desses dois dispositivos de poder:

1-    Assujeitamento sociale

2-    Servidão Maquínica

O assujeitamento é aquilo que nos adequa a uma identidade. Sua função é distribuir os papéis e as funções na divisão social do trabalho. No neoliberalismo, a forma desta divisão se dá sob os limites do capital humano e do empresário de si. Há uma ideia de que cada um é responsável pela sua inserção no mercado de trabalho. O investimento em si (na formação, no vestuário), levaria  a uma suposta inserção neste mercado. A essência subjetiva está ligada ao trabalho sobre si, seja por consequência, seja por emancipação. Exemplo de emancipação dado por Tatiana: a tv a cabo surge como promessa de maior liberdade de escolha. E o que se vê por aí? Um proliferação de canais com a mesma programação. Outro exemplo: acreditar que com o computador é possível trabalhar somente de casa.

Hoje, percebemos que essa ideia de emancipação fracassou. Na crise do neoliberalismo, o sujeito que deveria ser emancipado torna-se o grande culpado. Você é o patrão de si mesmo e, portanto, responsável pelo seu fracasso. Assim, o capitalismo padroniza e homogeniza economias expressivas. Os gestos, as coisas, as línguas, os amigos são semióticas compatíveis que devem se adaptar a lógica do capital. Você pinta a unha, o cabelo não mais somente como afirmação expressiva, mas sobretudo para não ser demitido. Há uma aceitação inconsciente e submissa dos lugares sociais. É preciso pertencer a uma identidade, responder ao papel que lhe é atribuído. Esses papéis funcionam como moedas de troca. Como capital. Daí a sua importância. E é desse modo, que se rejeita o indefinido. Ou se é alguma coisa, ou se é outra. Isso que você é tem alguma função. A partir dessas formas de assujeitamento social, o capitalismo encontra condições para impedir que se instaure qualquer possibilidade de libertação daquilo que se entende, através de Lazzarato, como “servidão maquínica”.

O termo “servidão maquínica” estabelece uma relação com a teoria da engenharia da automação e diz respeito a um sistema de retroalimentação dos mecanismos. Atua na dimensão maquínica do homem na contemporaneidade.  Homem e máquina tornaram-se inseparáveis. Basta pensar na relação entre o homem e o seu celular. Há uma desubjetivação na qual o indivíduo não é mais um sujeito individuado, mas uma peça na engrenagem da máquina capitalista. Ele é um dos componentes dos aparelhos de controle, de economia, de educação, da mídia e assim por diante. O carro é outro exemplo dado por Tatiana Roque de interação indistinta entre homem e máquina. O mecanismo de passar a marcha, frear é quase automático.

Hoje, nossas informações pessoais estão disponíveis nos bancos de dados do google e do facebook. A subjetivação é trocada pela estatística. Esses mecanismos podem ser entendidos através de diagramas e de vetores a partir dos quais o capitalismo exerce o seu controle. Como isso afeta a questão do corpo? Na medida em  que não há diferenciação entre sujeito e objeto, a ideia de que temos do corpo é falsa. As insurreições do corpo lidam com o desfazimento da ideia de que temos  um corpo que é nosso, separado do corpo do mundo. Tendo em vista este panorama, torna-se necessário pensar em modos de formulação de novos diagramas que combatam o assujeitamento social e a servidão maquínica. É possível construir novos territórios sociais? Essa mobilização de junho de 2013, segundo Tatiana, tem uma potência, mas corre o risco de ser apropriada pelo capitalismo. Como resistir e recuar sem ser engolido?

[Ana Kiffer, a partir da percepção da necessidade de elaboração de novos diagramas, pede para que Tatiana Roque faça um diagnóstico dos vetores de força que vêm atuando, mais especificamente no caso do Rio de Janeiro nos últimos meses].

Tatiana Roque diz que desde de junho alguma coisa se liberou no Brasil. Nas palavras de Pelbart, houve um “gesto de parada”.  Tatiana observa uma recusa na aceitação de certos papéis e funções sociais. Fala da sensação de catarse presente, sobretudo, nesses movimentos de junho e questiona: mas o que fazer com isso? Nossas questões hoje não são as mesmas da Ditadura Militar. Vivemos o fracasso da promessa de um lugar de emancipação. Contudo, esta recusa de adesão a uma identidade torna os movimentos extremamente fragmentários. Há uma tendência  reativa dos movimentos a tudo, o que acaba multiplicando esta fragmentação. Tatiana faz um convite à criação de novas formas de organização, novos instrumentos de análise, novos modos de vida. No final da mesa, profere o enunciado provocativo, que por ironia surgiu no “país do futebol”: não vai ter Copa. As instituições ficam aterrorizadas. É claro que vai ter Copa. Mas e aí? Como isso vai se dar? “Vai ter e não vai ter Copa”, brinca Tatiana.

Diante uma inquietação semelhante, Jorge Vasconcellos (RJ) vai discutir algumas questões políticas da atualidade. Sua fala começa com o relato de uma experiência pessoal que se deu em um evento de cinema, em outubro de 2013. Na ocasião, Jorge deveria falar em uma mesa sobre o cinema de Pedro Costa, mas  acabou espalhando o boato de que iria falar sobre os Black Blocks. O boato resultou na sala cheia e em uma conversa de três horas sobre as jornadas de junho. Essa experiência acendeu o seu desejo de fazer uma discussão semelhante nesta mesa.

Jorge apresenta sua pesquisa a partir daquilo que chama de “coletivos autonomistas” de arte do Rio de Janeiro. Em resumo, trata-se de coletivos que se mantém anônimos, recusam a arte institucional, trabalham em comunidades e atuam, sobretudo, nas manifestações. Se o capitalismo está sempre se apropriando do que lhe é desviante, o que esses coletivos colocam como tentativa de fuga dessa captura? É possível escapar dessa captura?

Como já foi dito, esses coletivos rejeitam a autoria. Esta é uma das características que difere estes de outros coletivos, que trabalham como um aglomerado de artistas em um processo colaborativo, mas que respondem por uma autoria, ainda que diluída. Aliás, as ações que estes grupos propõem, esbarram na tênue fronteira entre arte e não-arte. O mais importante é que se tratam de movimentos estéticos e de ações, que levam de modo efetivo, a relação entre arte e política.

Jorge cita o grupo carioca Anarco Funk, cujo trabalho apresentou uma mudança considerável após os acontecimentos de junho do ano passado. Sem deixar de utilizar a referência do funk carioca, o ataque à burguesia e os discursos anárquicos, o grupo radicalizou suas intervenções na rua. Aliás, outros coletivos também vêm cada vez mais se apropriando do espaço público. Jorge, que neste momento se dedica a fazer um levantamento destes coletivos, aponta para um risco no seu próprio trabalho. Ao fazer uma listagem desses grupos, não estaria ele atribuindo identidade àqueles que querem escapar a uma identificação?

O mais interessante é pensar de que modo esses coletivos apresentam uma resistência às imposições que o próprio sistema de arte colocou. O que muitas vezes vemos na crítica de arte (por mais brilhante que ela seja) é justamente a valorização de grupos e manifestações que já foram apropriados e reconhecidos pelo sistema. Mas o artista não deve sobreviver da sua arte? E como fazer isso? Através de editais? São questões talvez sem resposta. Como lidar com essa tensão? É preciso, segundo Jorge, ser fustigante.

[Mariana Patrício, fustigada pela fala de Jorge, pergunta se a negação total da instituição,  presente nestes movimentos anônimos, não carregaria em si uma utopia de pureza da construção de uma comunidade perfeita.]

Jorge indaga Mariana se a palavra pureza não estaria substituindo a palavra “ingenuidade”. A maior parte  desses grupos não são compostos por filhos da classe média, não ganham bolsas, nem apoio do Estado e por isso mesmo, recusam o seu poder.  Quase todos vêm de comunidades. Suas ações priorizam a tentativa de viver de um outro modo. Muitas iniciativas partem de jovens e chamam atenção para outros modos de produção artística, para além da redoma dos meios de produção da elite cultural carioca.

Peter Pál Pelbart inicia sua fala com a ideia de David Lapoujade: “o corpo é aquele que não aguenta mais”. E o que é que este corpo não aguenta mais? “Tudo aquilo que o coage por dentro e por fora”[4]. O corpo não aguenta mais a disciplina, o assujeitamento e a servidão maquínica (fazendo referência à contribuição de Tatiana Roque). Tampouco aguenta o martírio, inicialmente instaurado pelo cristianismo, patologizado pela medicina, até chegar a culpabilização e a narcose capitalista.  Enfim, maneiras criadas para esconder a dor. O corpo está farto da sua negação enquanto corpo afetado pelas forças do mundo. E o que é um corpo vivo, senão um corpo afetado pelos encontros com outros corpos?

Ao se defender das feridas mais grosseiras, o corpo se abre para apreender afecções mais sutis. Torna-se ativo a partir do devir que não nega. Tudo isto, em oposição ao silenciamento e ao sofrimento do corpo, proposto pela metafísica. Assistimos, desde Nietzsche uma outra economia da dor, livre de uma “existência asséptica e indolor”[5].

Pelbart chama a atenção para a pesquisa da filósofa Beatriz Preciado e destaca aquilo que ela chama de “regime fármaco-pornográfico”. Ao longo do século XX, conceitos como o psiquismo, a libido, a heterossexualidade, a homossexualidade, foram sendo transformados em substâncias comercializáveis. Pelbart lista: Viagra para a ereção, Prozac para a depressão, Testosterona para a masculinidade. Preciado quer pensar o homem “da cintura para baixo”: o desejo, a excitação das multidões, o prazer, o sentimento de auto complacência, como formas do capitalismo se guiar. Pelbart cita uma série de substâncias que ajudam na produção de estados apaziguados ou hiper-excitados. E brinca: “atire a primeira pedra quem nunca usou um desses produtos da lista”. Os derivados semióticos do sexo são os principais produtos do capitalismo pós-fordismo. A autora apresenta o termo “força orgásmica” como a potência de excitação global de cada molécula viva. Mecanismos que implicam em todas as esferas de subjetivação. Diferencia este controle farmacêutico (um “controle POP”), do tipo de controle frio e impositivo, citado por Foucault, visto que cada um deseja, ingere e traga esses produtos de controle pelos seus próprios meios.
Pelbart cita a experiência de Preciado, que passou gel de Testosterona na própria pele. Atualmente, a circulação desta substância capaz de borrar a fronteira entre os gêneros é regulada e controlada. Há na ação de Preciado, o exercício de desmontagem e remontagem de uma subjetividade, dentro dos tabus do próprio capitalismo. Preciado busca retirar os fármacos de suas funções normativas. A autora, que tensiona experimentação e teorização, resiste a pertencer a uma única categoria: nem lésbica, nem transexual. Um gênero que não pertence a ninguém, nem a ela própria ou a teoria Queer[6]. Processo que evoca outras percepções para além da representação, da identificação e da subjetivação. A mediadora Silvia Soter relembra a imagem da Valeska Popozuda com um bastão na mão (projetada em uma das mesas do dia) e chama a atenção para mais um uso da testosterona: o de emagrecimento.

Falando da dança, Pelbart acredita que este talvez seja um dos campos mais férteis para nos mostrar, através da experiência, que nós ainda não vimos nada.  Ele cita o trabalho do bailarino japonês Min Tanaka, convidado por Guattarri para se apresentar na clínica psiquiátrica La Borde. Pelbart descreve a dança de Tanaka mais ou menos assim: perdem-se os limites entre a terra e o céu, o macho e a fêmea, o humano e o inumano, o mineral e o vegetal. Ele pinta a história da humanidade com o seu corpo, como se a terra dançasse através dele. Min Tanaka é um foco de resistência, meio ao regime luminoso dos holofotes, da publicidade, dos letreiros luminosos e em neon. Um resistência multidentitária e antifascista.

[Algumas intervenções do público encontram-se diluídas nas falas e nos questionamentos deste relatório. Contudo, destacamos:

– A observação de como esses olhares dialogam na tentativa da produção de um composto. A dança tenta encontrar espaços de um composto na cena. Especificamente, na abordagem sobre gênero, é importante perceber como a sexualidade é atravessada e levada para a cena. Há na fala da recepção, uma crença na dança como território de maior transgressão. Um participante pergunta da plateia: o que transborda estas bordas do corpo? Outra pessoa pergunta: após os movimentos de junho, houve alguma mudança no modo com que as instituições lidam com essas práticas? Sem respostas definitivas, encerramos com uma frase dita por Peter Pál Pelbart: é preciso que o trem descarrilhe[7]].


[1] Trecho da citação de Châtelet.

[2] Expressão utilizada por Ana Kiffer nesta fala.

[3] Idem.

[4] Palavras utilizadas por Pelbart, nesta fala.

[5] Expressão de Pelbart utilizada nesta fala.

[6] A partir de uma citação de Preciado feita por Peter Pál Pelbart.

[7] Frase usada por Pelbart nesta mesa.

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