Pensamento do corpo/corpo do pensamento


Pensamento do corpo/corpo do pensamento


Quando em 1968 a coreógrafa estadounidense Yvonne Rainer encerra o texto do programa do seu espetáculo The mind is a muscle (A mente é um músculo) com a seguinte frase: meu corpo permanece como a realidade que resiste (my body remains the enduring reality) ela está abrindo uma questão ao invés de proporcionar uma resposta. Que corpo é esse que está em jogo na dança? De que forma ele pode ser pensado como uma realidade que resiste?

Se o corpo resiste através de sua materialidade irredutível é porque essa materialidade não se deixa capturar ou apreender nem pela linguagem nem pelo pensamento. Ou seja, o corpo força o pensamento a enfrentar um limite.

Nesse sentido, seria preciso distinguir um pensamento do corpo de um pensamento sobre o corpo.

O pensamento sobre o corpo seria aquele que o transforma em um objeto capaz de ser dissecado e reconhecido – como um anatomista diante de um cadáver. Nesse modo, entretanto, o corpo não pára de desaparecer, como diz o filósofo José Gil no livro Metamorfoses do Corpo: quanto mais sobre ele se fala, menos ele existe por si próprio (Gil, 1997:13). Ou seja, a materialidade que resiste do corpo não é equivalente à organicidade do corpo que pode ser pesada, medida e classificada, mas algo vivo que sempre escapa à essas classificações.

Diante dessa “materialidade em fuga”, o pensamento do corpo é aquele que enfrenta um limite no qual a linguagem já não pode determinar o que é um corpo, onde a própria questão “o que é um corpo” deixa de fazer sentido.

Isso não quer dizer que o corpo emudeça o pensamento: pelo contrário, é justamente diante dessa fronteira irredutível que o pensamento se constitui como uma força que atravessa o senso comum propondo novas formas de sentir e estar junto. Pois, ao suspender a possibilidade da linguagem de definir o que é o mundo, suspendem-se também as relações de poder que estão configuradas nesse mesmo mundo. Logo, o pensamento do corpo é sempre político, mas não está nunca no lugar do instituído, está sempre, ele próprio, em suspensão.

O pensamento do corpo embaralha as oposições entre passividade e atividade, entre afetar e ser afetado, entre movimento e repouso, entre forma e matéria, todas elas entreligadas na constituição do pensamento ocidental desde Platão e Sócrates. Segundo essa tradição, a materialidade do corpo é o lugar da passividade que só toma forma e se movimenta através da ação de uma força externa.

Ao afirmar que ainda não sabemos o que pode o corpo, Espinosa está reconhecendo que a possibilidade do corpo de ser afetado é um lugar potente, na qual a distinção entre passividade e atividade adquire outros sentidos.

Como a dança se relaciona com esse pensamento?

A relação entre dança e filosofia é ao mesmo tempo estreita e distante. Estreita pois, cada vez mais, assistimos a espetáculos de dança que se aproximam e se inspiram no discurso filosófico. Ao mesmo tempo, como o nota Fréderic Pouillaude, a filosofia parece desconhecer a prática concreta da dança mesmo quando se interessa por ela. Textos inteiros, como A Alma e a Dança de Paul Valéry, para citar um exemplo célebre, não fazem qualquer menção a artistas ou obras. Falam da dança como uma arte transcendental que jamais se atualiza no presente: “No lugar dessas marcas empíricas ausentes, apresenta-se uma palavra vazia, comum, geral e abstrata, na mesma medida que a sua maiúscula: a Dança” (Pouillaude, Le desoeuvrement chorégraphique).

Esse apagamento da prática empírica revelaria, ainda segundo Pouillaude, além do desconhecimento dos filósofos, uma dificuldade intrínseca da dança em se constituir como objeto de arte tal qual o conhecemos. Essa fragilidade se expressaria pela dificuldade de escrita de uma obra coreográfica que parece sempre intrinsecamente dependente da presença daquele que a criou. Ou seja, a dança na sua impossibilidade de repetir coloca em xeque a noção de obra. A consequência dessa posição desafiadora que a dança coloca para o objeto de arte é que, com isso, as próprias práticas artísticas são excluídas da reflexão estética.

Sem pretender aqui esgotar essa discussão, é interessante pensar de que modo tanto a dança como o que chamamos de pensamento do corpo forçam a recriar e questionar as fronteiras reconhecidas entre arte, pensamento e política.

Nesse sentido, falar em Corpo do Pensamento implica em reconhecer que a suspensão da lógica da significação (da possibilidade de definir o que é um corpo) não implica que possamos transformá-lo em uma entidade imaterial, neutra, sem peso nem cor, nem história. Pelo contrário, implica em considerá-lo como algo que só existe e só resiste (para continuar com Rainer) NO mundo e em relação com as forças históricas e políticas em jogo. Como apontam Gilles Deleuze e Félix Guattari no capítulo do livro Mil Platôs, Como criar para si um corpo sem órgãos:

Desfazer o organismo nunca foi matar-se, mas abrir o corpo a conexões que supõem todo um agenciamento, circuitos, conjunções, superposições e limiares, passagem e distribuições de intensidade, territórios e desterritorializações (Deleuze e Guattari, 2004: 22).

CATEGORIA

Corpo do Pensamento

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