Minimalismo


Minimalismo


Como em todos os movimentos criados por críticos e historiadores da arte a classificação “minimalismo” é um tanto arbitrária e homogeneizadora das diferenças.  Ela é empregada geralmente para classificar trabalhos de artistas visuais norte-americanos que possuíam afinidades estéticas nos anos 60 como Donald Judd, Dan Flavin e Robert Morris. A dança se aproxima dessa busca estética através do trabalho de Simone Forti, Yvonne Rainer (parceiras de Morris), Lucinda Childs entre outros.

A semelhança entre os trabalhos dos artistas conhecidos como minimalistas reside na forma com que trabalham os materiais primando pela simplicidade e por um desejo de por fim ao ilusionismo, apresentando os materiais como são, sem ornamentação.

Yvonne Rainer explicita sua aproximação com o minimalismo em um artigo que, paradoxalmente, apresenta o prolixo título: A quasi-survey of some MinimalistTendencies in the Quantitatively Minimal Dance Activity Midst the Plehora or an Analysis of Trio A . O artigo divide em duas colunas: a primeira aponta o que deve ser eliminado ou minimizado e a segunda o que deve substituir os conteúdos eliminados.

Os elementos que deveriam ser eliminados da cena são todos aqueles que produziriam um efeito de ilusionismo (ênfase nas mãos, relação hierárquica entre as partes do corpo envolvidas na composição do movimento, textura, figuras referenciais, ilusionismo, complexidade e detalhe, monumentalidade, clímax, virtuosismo, etc.) (Rainer, 1974:63).

Mas essa operação de redução e os efeitos estéticos que ela produz são complexo. Segundo o crítico Georges Didi-Huberman, em “O que vemos, o que nos olha”, o minimalismo ao tentar apresentar esculturas que representem os objetos como eles realmente são (“what you see is what you see”) acabam estabelecendo uma trama complexa sobre a relação entre objeto e imagem. A princípio o objetivo da arte dita minimalista era remover toda a carga de ilusionismo da arte.

“Se fosse preciso resumir brevemente os aspectos fundamentais reivindicados pelos artistas desse movimento (…) teríamos que começar por deduzir o jogo do que eles propunham a partir de tudo que proscreviam ou proibiam. Tratava-se em primeiro lugar de eliminar toda a ilusão para impor objetos ditos específicos, objetos que não pedissem outra coisa senão serem vistos por aquilo que são. O propósito, simples em tese, se revelará excessivamente delicado na realidade de sua prática. Pois, a ilusão se contenta com pouco tamanha é a sua avidez: a menor representação rapidamente terá fornecido algum alimento – ainda que discreto, ainda que um simples detalhe” (Didi-Huberman, 2005:50)

Segundo Didi-Huberman, ao elevar ao paroxismo a apresentação do objeto em sua tautologia, ou seja como um bloco concreto que não permite a a invenção de tempo nem espaço, o minimalismo acaba, paradoxalmente, trazendo a tona para a contemplação da imagem, a noção de experiência: Isso porque esses objetos auto-contidos só existem diante do olhar de um espectador.

Essa necessidade da inclusão do espectador na experiência artística levou o crítico conservador Michael Fried a desmerecer o minimalismo enquanto arte. Segundo Fried, esses artistas destruíam o que a pintura tinha conseguido atingir no século XX: sua autonomia e sua independência de fatores históricos

“A resposta que eu gostaria de propor é a seguinte: a adesão literalista (como Fried chamava os minimalistas) à objetividade na verdade não é senão um pretexto para um novo gênero de teatro, e o teatro agora é a negação da arte” (Fried, apud Didi-Huberman, 2005:72).

O que está em jogo aqui com a questão do teatro é a discussão sobre a presença. O minimalismo desmonta o esquema da representação, mas também desestrutura o paradigma modernista da arte como um fim em si mesma, valorizada por Michael Fried.

Rosalind Krauss em Passages in the twentieth century sculpture enfatiza que o interesse desses artistas residia em investigar de que forma a experiência estética produz sentido.

“A questão da linguagem e do sentido em Wittgenstein nos ajuda por analogia a ver o lado positivo da empreitada minimalista, pois ao recusar a dar à obra de arte um centro ilusionista ou interior, artistas minimalistas estão simplesmente reavaliando a lógica de uma fonte particular de sentido e não simplesmente negando que o objeto estético contenha sentido. Eles estão pedindo que o sentido seja visto como algo que surge de um sentido público mais do que privado” (Krauss,1998)

Trata-se de pensar então como essa fonte cuja substância que emana é pública pode ser ao mesmo tempo lugar fora da representação, mas elemento de disputa política.

Bibliografia:

DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 1998

KRAUSS, Rosalind. Caminhos da escultura moderna. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

FRIED, Michael. Contre la théâtralité : du minimalisme à la photographie contemporaine.Paris: Gallimard, 2007. Tradução do livro Art and Objecthood.

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