Materialidade: como um corpo que dança constrói sentido?


Materialidade: como um corpo que dança constrói sentido?


Ao procurar definir a especificidade da dança contemporânea Laurence Louppe aponta para a ênfase dada ao corpo, e sobretudo ao corpo em movimento, que passa a ocupar simultaneamente as posições de sujeito, objeto e ferramenta de seu próprio saber. Essa transformação que a dança contemporânea opera requer que se pense em outros modos de apreensão e expressão do sentido que não obedecem mais às separações entre significante e significado, forma e conteúdo que estruturam a linguagem discursiva e que supõe a distinção clara entre sujeito e objeto.

Se o corpo é ao mesmo tempo significante e significado, ou melhor, se embaralha essas categorias, questionand0-as, como pode construir sentido? Sentido aqui pensado através do filósofo Jean-Luc Nancy como algo que se endereça a um outro que constrói uma relação.

Em sua tese de doutorado, Mariana Patrício analisa como a discussão sobre a materialidade pode representar uma pista para pensar a construção de sentido do corpo, investigando a reflexão de Judith Butler a respeito dessa questão.

Judith Butler em Bodies that matter chama a atenção para a dificuldade em se pensar a questão da materialidade como um tradicional objeto de estudo. Na base dessa dificuldade está  a forma como o ocidente estabeleceu relação entre o feminino e a materialidade. A origem dessa associação é etimológica e encontrada na forma como o termo matéria (matter) está relacionado à matrix (útero) (Butler, 2009:43). A matéria é o espaço de inscrição do significado, receptáculo que Platão chamou, no Timeu, de Chôra. A matéria é aquilo sem o qual não há mundo, mas que, por sua vez, não pode nomear o mundo, ganhando visibilidade ao adquirir uma forma conferida a partir de um princípio externo. Como superfície de inscrição, a matéria é infinitamente penetrável ainda que informe: ela é o irrepresentável que torna possível toda a representação

O feminino não tendo rigorosamente forma, morfologia ou contorno: definido como aquilo que contribui à delimitação das coisas, sendo ele próprio indiferenciado, sem limites.

Como pensar, então, formas através das quais a  materialidade produz discurso?

Butler sugere que se pare de pensar a matéria como “referente bruto, superfície ou tábula rasa”, mas como um princípio de transformação que supõe e induz um futuro. Um processo de materialização que ao longo do tempo se estabiliza e produz o efeito de fronteira e de superfície.Seria importante pensar a matéria não como massa amorfa, mas como princípio de transformação.

A dança contemporânea ao investigar modos de construção de sentido do corpo em movimento necessariamente politiza esse processo de materialização no qual os valores e significados instituídos podem ser questionados ou recriados.

Na foto a artista portuguesa Vera Mantero no espetáculo Uma misteriosa coisa, disse o E.E. Cummings em  homenagem à Josephine Baker. A homenagem leva Mantero a enfrentar em sua composição vários questionamentos éticos, como cita André Lepecki em seu instigante texto sobre essa performance:“Mantero teve que superar diversos obstáculos para criar sua dança: como uma mulher europeia, de um país que até 1974 via sua missão como a de ‘colonizar pessoas e terras’ retratar, evocar e dançar no nome e no corpo de uma dançarina afro-americana já falecida?  (Andre Lepecki, Exhausting dance: performance and the politics of movement).

Como resultado Mantero apresenta seu corpo transformado em uma imagem fantasmagórica, meio mulher, meio animal, meio drag-queen, meio preta, meio branca.A performance de Mantero encena então a necessidade de enfrentar a história, sem cair na armadilha do mimetismo e da representação, o que despotencializaria completamente a força pertubadora da dança de sua homenageada.

CATEGORIA

Corpo do Pensamento

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