Historiografia


Historiografia


“Não existem fatos, só existem interpretações” com essa frase Nietzsche destruía com seu martelo as pretensões cientificistas dos historiadores para quem  a escrita da história seria uma forma transparente de organizar cronologicamente as grandes narrativas. Escrever a história, historiografar, é também criar histórias, privilegiando determinados recortes e pontos de vista. Nesse Tema vamos questionar algumas dessas narrativas históricas a respeito da dança confrontando-as e pondo-as em diálogo.

São objeto de nossa pesquisa a observação de diferentes maneiras de historiografia e a discussão de como elas nos servem. A riqueza das novas abordagens historiográficas abre um imenso leque de possibilidades de análise, permitindo ao pesquisador estudos comparativos entre artistas e obras de diferentes períodos históricos, construindo novos parâmetros e critérios. As duas noções aqui expostas são também discutidas na dissertação de mestrado de Flavia Meireles no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais na UFRJ.

A primeira delas retoma a noção de uma “historiografia performativa” como um modo de proceder, formulada na tese de doutorado da pesquisadora Eleonora Fabião (NYU, Performance Studies, 2006), em que a autora defende uma prática histórica anti-metafísica e contra-totalitária, na direção de uma experiência dos fatos fenomenológica e conscientemente corpórea. Tal proposição quer observar os fatos, os documentos sobre os fatos, a linguagem e a arte da performance sem ignorar ou resolver as lacunas entre eles, ou seja, sem resolver a inerente assimetria entre experiência, arquivo e narrativas históricas. Ao contrário, o esforço é de assumi-las como parte constituinte do escrever histórico, a fim de historiografar “sem criar experiências e expressões artísticas monumentais ou colonizadoras” (FABIÃO, 2006:24. Tradução de Flavia Meireles).

A segunda abordagem historiográfica que nos parece importante considerar se refere ao contexto histórico, através da noção de “conexão espectral”. Esta abordagem se concretiza nas palavras do pesquisador Grei Marcus em seu livro “Lipstick traces”, de 1989:

“O contexto histórico é o resultado de momentos que parecem nada deixar para trás deles mesmos, nada, exceto o mistério de conexões espectrais entre pessoa muito distanciadas no espaço e no tempo, mas falando, de alguma maneira, a mesma língua”.
Buscamos, neste espaço, levantar outras possibilidades historiográficas que tensionem e multipliquem as possibilidades de se fazer história hoje.

O quadro foi uma das inspirações para o filósofo alemão Walter Bejamin formular as suas teses sobre o conceito de história. Nelas, Benjamin critica a historiografia que acredita poder resgatar e recuperar o passado tal qual ele foi, enquanto que para o filósofo o passado como uma imagem que não se deixa capturar e que foge a cada momento.

“A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido (…) Pois irrecuperável é cada imagem do presente que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela (…)” (BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História. in: BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Vol 1. São Paulo: Brasiliense, 1994)

Com Benjamin poderíamos dizer que a história é um gesto de dança.

 

 

CATEGORIA

Historiografia da Dança

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