Artista em Trânsito


Artista em Trânsito


A idéia de mapear algumas trajetórias de artistas da Dança que se mantém em deslocamento, construindo seus trabalhos em situações geográficas distintas das de sua origem, a que chamamos aqui de “artistas em trânsito”, se encontra em consonância com as condições de grande mobilidade do ser humano contemporâneo. Para alguns artistas, atuar no campo da arte é, em si mesmo, uma tentativa de responder ao sentimento de ser estrangeiro, à necessidade de inventar um lugar, assumindo e desafiando essa condição.

Ao tratar da formação de novas identidades num mundo globalizado, o sociólogo Stuart Hall* aponta para o movimento contraditório entre Tradição e Tradução. A idéia de tradução, que etimologicamente do latim significa “transferir”, “transportar entre fronteiras”, carrega consigo toda uma série de elementos culturais e tem sido constantemente tema de debates. Na tradução de uma expressão de uma Língua para a outra, se o contexto não for considerado atentamente, criam-se novos sentidos. Por outro lado, observa-se com freqüência que é a palavra traduzida que dá vida ao texto, iluminando aspectos antes ignorados. Assim, hoje, o ato de traduzir se constitui como uma forma de recriar, a ponto do tradutor ser considerado co-autor do texto.

Hall se apropria do conceito de tradução para descrever identidades que atravessam e intersectam as fronteiras naturais, compostas por pessoas que, dispersadas de sua terra natal, ainda retêm fortes vínculos com suas tradições, mas sem a ilusão de um retorno ao passado. Artistas migrantes, que pertencem a dois mundos ou mais ao mesmo tempo, são homens traduzidos. Precisam negociar com as novas culturas em que vivem, sem simplesmente serem assimilados por elas, já que carregam os traços das tradições, das linguagens e das histórias particulares pelas quais foram marcados. São o produto de várias histórias e culturas interconectadas; pertencem a uma e, ao mesmo tempo, a várias casas. Aprendem a habitar, no mínimo, duas identidades, a falar duas linguagens culturais, a traduzir e a negociar entre elas. O estar-em-trânsito equivale a estar sempre em outro lugar. São identidades híbridas e têm sido obrigadas a renunciar ao sonho de redescobrir qualquer tipo de pureza cultural perdida.

Quais os impactos que tal condição engendra no senso de indivíduo, de pertencimento a um lugar ou a uma cultura? Que papel os lugares tem na formação de identidades e valores culturais? Até que ponto esse artista traduzido, em trânsito, é capaz de abrir mão dos sentimentos de origem e  resistir aos impulsos nostálgicos? Quais os efeitos para a arte, subjetividade e identidades locais?

A partir desses questionamentos, surge a possibilidade de se criar noções completamente diferentes de lugar enquanto predominantemente intertextual, com localidades múltiplas e operando num campo discursivo. E surge aí, talvez, um artista-sujeito nômade, “livre” de vínculos com as circunstâncias locais. Esse nomadismo, por sua vez, exige a experiência física e psíquica do deslocamento e da desestabilização. Nesta, novas formas de pertencimento estariam ligadas a um sistema de movimentação e desterro.

Este espaço pretende abrir a ampla discussão desses temas, assim como levantar novas questões.


* Stuart Hall é professor da Open University e um dos fundadores do Centre for Contemporary Cultural Studies, na Inglaterra, tendo sido seu diretor de 1970 a 1979.

CATEGORIA

Artista em Trânsito

DATA