Relato crítico: Clarisse Zarvos

Relato crítico: Clarisse Zarvos


Seminário Bordas do Corpo

Mesa 3: Insurreições do corpo no contemporâneo

Peter Pál Pelbart (SP), Ana Kiffer (RJ), Jorge Vasconcellos (RJ), Tatiana Roque (RJ)

Mediação: Silvia Soter

Corpo e política são noções indissociáveis. Posturas, padrões, tendências e gestos se constituem e se desfazem, a partir do atravessamento de diversos vetores sociais, políticos, econômicos e culturais. Os corpos só existem a partir de um emaranhado de relações entre corpos, sejam eles individuais e/ou coletivos. Um corpo, ainda que defenda uma identidade, nunca se encerra nele próprio. Seu estado é sempre de passagem por diferentes formas, afetos, movimentos, espaços e tempos. Os corpos podem responder em adesão às forças que lhe tocam, mas também podem transgredi-las. Contra que forças os corpos se rebelam? O que nossos corpos não aguentam mais? De que maneira se operam essas insurreições do corpo? Uma insurreição é sempre uma negação? Que novas ferramentas se tornam necessárias para que possamos tentar compreender aquilo que nos atravessa? É possível diagnosticar o presente em que se vive? De que maneira?

Ana Kiffer (RJ) abre a mesa Insurreições do Corpo no Contemporâneo com uma epígrafe de François Châtelet. Nesta citação, o autor analisa um aspecto perturbador em determinadas insurreições engendradas pela miséria física e moral, como por exemplo, as ações revolucionárias na França em 1789, ou as intervenções operárias e nacionais do século XIX. Trata-se de movimentos e migrações que se articulam no interior das mesmas sociedades que formam os indivíduos sobre os seus limites. Movimentos cujas ações buscam por maior espaço. Nessa direção expansiva, os envolvidos não deixam de introduzir a sua força para imprensar e captar novos movimentos felizes e pulsantes, movimentos diferentes dos seus, “transformando-os em negócio e se possível, em negócio de Estado”[1]. Desse modo, uma vez alcançado o lugar de poder, recomeçam as matanças e renascem as instituições ou, nas palavras de Châtelet: “os meios de domesticação de massacres lentos”. Mas será que o destino de toda revolução é instaurar um modelo, ainda que outro, de uma instituição opressora? Existe sempre uma revolução a se fazer? Sob que pontos de vista, para além da esfera social, pode se operar uma revolução?  Ana Kiffer coloca: em que medida a revolução é uma “viagem infinita”[2] sempre em confronto com aquilo que há de “monstruoso e insuportável”[3] no presente da vida?

 

Tatiana Roque (RJ) inicia sua fala identificando o impacto dos acontecimentos políticos de junho de 2013, no Brasil, e a necessidade de se criar novas formas de pensar e fazer política. Neste momento de tamanha potência, renovação e de uma coletivização talvez inédita na história mais recente do país, os antigos modos de movimento e organização política, como os sindicatos ou os partidos, se mostraram desgastados ou pouco potentes. Há uma urgência na reflexão e na criação de outras formas de organização e de movimento. E para isso é preciso que se estabeleçam novos diagnósticos, novas ferramentas reflexivas para debruçar-se sobre o presente, para tentar compreender quais tipo de agenciamentos são produzidos pelo capitalismo e como o capitalismo se apropria deles e os devora.

Amparada por leituras do filósofo italiano Maurizio Lazzarato e de algum modo influenciada por Deleuze e Guattarri, Tatiana Roque segue com a seguinte questão: de que maneira capitalismo e produção de subjetividade se articulam? Afinal de contas, a produção de riqueza depende da subjetividade de uma dimensão abstrata, que é submetida ao domínio da representação (política ou linguística). Atualmente, isto se torna mais claro no cruzamento desses dois dispositivos de poder:

1-    Assujeitamento social e

2-    Servidão Maquínica

O assujeitamento é aquilo que nos adequa a uma identidade. Sua função é distribuir os papéis e as funções na divisão social do trabalho. No neoliberalismo, a forma desta divisão se dá sob os limites do capital humano e do empresário de si. Há uma ideia de que cada um é responsável pela sua inserção no mercado de trabalho. O investimento em si (na formação, no vestuário), levaria  a uma suposta inserção neste mercado. A essência subjetiva está ligada ao trabalho sobre si, seja por consequência, seja por emancipação. Exemplo de emancipação dado por Tatiana: a tv a cabo surge como promessa de maior liberdade de escolha. E o que se vê por aí? Um proliferação de canais com a mesma programação. Outro exemplo: acreditar que com o computador é possível trabalhar somente de casa.

Hoje, percebemos que essa ideia de emancipação fracassou. Na crise do neoliberalismo, o sujeito que deveria ser emancipado torna-se o grande culpado. Você é o patrão de si mesmo e, portanto, responsável pelo seu fracasso. Assim, o capitalismo padroniza e homogeniza economias expressivas. Os gestos, as coisas, as línguas, os amigos são semióticas compatíveis que devem se adaptar a lógica do capital. Você pinta a unha, o cabelo não mais somente como afirmação expressiva, mas sobretudo para não ser demitido. Há uma aceitação inconsciente e submissa dos lugares sociais. É preciso pertencer a uma identidade, responder ao papel que lhe é atribuído. Esses papéis funcionam como moedas de troca. Como capital. Daí a sua importância. E é desse modo, que se rejeita o indefinido. Ou se é alguma coisa, ou se é outra. Isso que você é tem alguma função. A partir dessas formas de assujeitamento social, o capitalismo encontra condições para impedir que se instaure qualquer possibilidade de libertação daquilo que se entende, através de Lazzarato, como “servidão maquínica”.

O termo “servidão maquínica” estabelece uma relação com a teoria da engenharia da automação e diz respeito a um sistema de retroalimentação dos mecanismos. Atua na dimensão maquínica do homem na contemporaneidade.  Homem e máquina tornaram-se inseparáveis. Basta pensar na relação entre o homem e o seu celular. Há uma desubjetivação na qual o indivíduo não é mais um sujeito individuado, mas uma peça na engrenagem da máquina capitalista. Ele é um dos componentes dos aparelhos de controle, de economia, de educação, da mídia e assim por diante. O carro é outro exemplo dado por Tatiana Roque de interação indistinta entre homem e máquina. O mecanismo de passar a marcha, frear é quase automático.

Hoje, nossas informações pessoais estão disponíveis nos bancos de dados do google e do facebook. A subjetivação é trocada pela estatística. Esses mecanismos podem ser entendidos através de diagramas e de vetores a partir dos quais o capitalismo exerce o seu controle. Como isso afeta a questão do corpo? Na medida em  que não há diferenciação entre sujeito e objeto, a ideia de que temos do corpo é falsa. As insurreições do corpo lidam com o desfazimento da ideia de que temos  um corpo que é nosso, separado do corpo do mundo. Tendo em vista este panorama, torna-se necessário pensar em modos de formulação de novos diagramas que combatam o assujeitamento social e a servidão maquínica. É possível construir novos territórios sociais? Essa mobilização de junho de 2013, segundo Tatiana, tem uma potência, mas corre o risco de ser apropriada pelo capitalismo. Como resistir e recuar sem ser engolido?

[Ana Kiffer, a partir da percepção da necessidade de elaboração de novos diagramas, pede para que Tatiana Roque faça um diagnóstico dos vetores de força que vêm atuando, mais especificamente no caso do Rio de Janeiro nos últimos meses].

Tatiana Roque diz que desde de junho alguma coisa se liberou no Brasil. Nas palavras de Pelbart, houve um “gesto de parada”.  Tatiana observa uma recusa na aceitação de certos papéis e funções sociais. Fala da sensação de catarse presente, sobretudo, nesses movimentos de junho e questiona: mas o que fazer com isso? Nossas questões hoje não são as mesmas da Ditadura Militar. Vivemos o fracasso da promessa de um lugar de emancipação. Contudo, esta recusa de adesão a uma identidade torna os movimentos extremamente fragmentários. Há uma tendência  reativa dos movimentos a tudo, o que acaba multiplicando esta fragmentação. Tatiana faz um convite à criação de novas formas de organização, novos instrumentos de análise, novos modos de vida. No final da mesa, profere o enunciado provocativo, que por ironia surgiu no “país do futebol”: não vai ter Copa. As instituições ficam aterrorizadas. É claro que vai ter Copa. Mas e aí? Como isso vai se dar? “Vai ter e não vai ter Copa”, brinca Tatiana.

 

Diante uma inquietação semelhante, Jorge Vasconcellos (RJ) vai discutir algumas questões políticas da atualidade. Sua fala começa com o relato de uma experiência pessoal que se deu em um evento de cinema, em outubro de 2013. Na ocasião, Jorge deveria falar em uma mesa sobre o cinema de Pedro Costa, mas  acabou espalhando o boato de que iria falar sobre os Black Blocks. O boato resultou na sala cheia e em uma conversa de três horas sobre as jornadas de junho. Essa experiência acendeu o seu desejo de fazer uma discussão semelhante nesta mesa.

Jorge apresenta sua pesquisa a partir daquilo que chama de “coletivos autonomistas” de arte do Rio de Janeiro. Em resumo, trata-se de coletivos que se mantém anônimos, recusam a arte institucional, trabalham em comunidades e atuam, sobretudo, nas manifestações. Se o capitalismo está sempre se apropriando do que lhe é desviante, o que esses coletivos colocam como tentativa de fuga dessa captura? É possível escapar dessa captura?

Como já foi dito, esses coletivos rejeitam a autoria. Esta é uma das características que difere estes de outros coletivos, que trabalham como um aglomerado de artistas em um processo colaborativo, mas que respondem por uma autoria, ainda que diluída. Aliás, as ações que estes grupos propõem, esbarram na tênue fronteira entre arte e não-arte. O mais importante é que se tratam de movimentos estéticos e de ações, que levam de modo efetivo, a relação entre arte e política.

Jorge cita o grupo carioca Anarco Funk, cujo trabalho apresentou uma mudança considerável após os acontecimentos de junho do ano passado. Sem deixar de utilizar a referência do funk carioca, o ataque à burguesia e os discursos anárquicos, o grupo radicalizou suas intervenções na rua. Aliás, outros coletivos também vêm cada vez mais se apropriando do espaço público. Jorge, que neste momento se dedica a fazer um levantamento destes coletivos, aponta para um risco no seu próprio trabalho. Ao fazer uma listagem desses grupos, não estaria ele atribuindo identidade àqueles que querem escapar a uma identificação?

O mais interessante é pensar de que modo esses coletivos apresentam uma resistência às imposições que o próprio sistema de arte colocou. O que muitas vezes vemos na crítica de arte (por mais brilhante que ela seja) é justamente a valorização de grupos e manifestações que já foram apropriados e reconhecidos pelo sistema. Mas o artista não deve sobreviver da sua arte? E como fazer isso? Através de editais? São questões talvez sem resposta. Como lidar com essa tensão? É preciso, segundo Jorge, ser fustigante.

[Mariana Patrício, fustigada pela fala de Jorge, pergunta se a negação total da instituição,  presente nestes movimentos anônimos, não carregaria em si uma utopia de pureza da construção de uma comunidade perfeita.]

Jorge indaga Mariana se a palavra pureza não estaria substituindo a palavra “ingenuidade”. A maior parte  desses grupos não são compostos por filhos da classe média, não ganham bolsas, nem apoio do Estado e por isso mesmo, recusam o seu poder.  Quase todos vêm de comunidades. Suas ações priorizam a tentativa de viver de um outro modo. Muitas iniciativas partem de jovens e chamam atenção para outros modos de produção artística, para além da redoma dos meios de produção da elite cultural carioca.

 

Peter Pál Pelbart inicia sua fala com a ideia de David Lapoujade: “o corpo é aquele que não aguenta mais”. E o que é que este corpo não aguenta mais? “Tudo aquilo que o coage por dentro e por fora”[4]. O corpo não aguenta mais a disciplina, o assujeitamento e a servidão maquínica (fazendo referência à contribuição de Tatiana Roque). Tampouco aguenta o martírio, inicialmente instaurado pelo cristianismo, patologizado pela medicina, até chegar a culpabilização e a narcose capitalista.  Enfim, maneiras criadas para esconder a dor. O corpo está farto da sua negação enquanto corpo afetado pelas forças do mundo. E o que é um corpo vivo, senão um corpo afetado pelos encontros com outros corpos?

Ao se defender das feridas mais grosseiras, o corpo se abre para apreender afecções mais sutis. Torna-se ativo a partir do devir que não nega. Tudo isto, em oposição ao silenciamento e ao sofrimento do corpo, proposto pela metafísica. Assistimos, desde Nietzsche uma outra economia da dor, livre de uma “existência asséptica e indolor”[5].

Pelbart chama a atenção para a pesquisa da filósofa Beatriz Preciado e destaca aquilo que ela chama de “regime fármaco-pornográfico”. Ao longo do século XX, conceitos como o psiquismo, a libido, a heterossexualidade, a homossexualidade, foram sendo transformados em substâncias comercializáveis. Pelbart lista: Viagra para a ereção, Prozac para a depressão, Testosterona para a masculinidade. Preciado quer pensar o homem “da cintura para baixo”: o desejo, a excitação das multidões, o prazer, o sentimento de auto complacência, como formas do capitalismo se guiar. Pelbart cita uma série de substâncias que ajudam na produção de estados apaziguados ou hiper-excitados. E brinca: “atire a primeira pedra quem nunca usou um desses produtos da lista”. Os derivados semióticos do sexo são os principais produtos do capitalismo pós-fordismo. A autora apresenta o termo “força orgásmica” como a potência de excitação global de cada molécula viva. Mecanismos que implicam em todas as esferas de subjetivação. Diferencia este controle farmacêutico (um “controle POP”), do tipo de controle frio e impositivo, citado por Foucault, visto que cada um deseja, ingere e traga esses produtos de controle pelos seus próprios meios.
Pelbart cita a experiência de Preciado, que passou gel de Testosterona na própria pele. Atualmente, a circulação desta substância capaz de borrar a fronteira entre os gêneros é regulada e controlada. Há na ação de Preciado, o exercício de desmontagem e remontagem de uma subjetividade, dentro dos tabus do próprio capitalismo. Preciado busca retirar os fármacos de suas funções normativas. A autora, que tensiona experimentação e teorização, resiste a pertencer a uma única categoria: nem lésbica, nem transexual. Um gênero que não pertence a ninguém, nem a ela própria ou a teoria Queer[6]. Processo que evoca outras percepções para além da representação, da identificação e da subjetivação. A mediadora Silvia Soter relembra a imagem da Valeska Popozuda com um bastão na mão (projetada em uma das mesas do dia) e chama a atenção para mais um uso da testosterona: o de emagrecimento.

Falando da dança, Pelbart acredita que este talvez seja um dos campos mais férteis para nos mostrar, através da experiência, que nós ainda não vimos nada.  Ele cita o trabalho do bailarino japonês Min Tanaka, convidado por Guattarri para se apresentar na clínica psiquiátrica La Borde. Pelbart descreve a dança de Tanaka mais ou menos assim: perdem-se os limites entre a terra e o céu, o macho e a fêmea, o humano e o inumano, o mineral e o vegetal. Ele pinta a história da humanidade com o seu corpo, como se a terra dançasse através dele. Min Tanaka é um foco de resistência, meio ao regime luminoso dos holofotes, da publicidade, dos letreiros luminosos e em neon. Um resistência multidentitária e antifascista.

[Algumas intervenções do público encontram-se diluídas nas falas e nos questionamentos deste relatório. Contudo, destacamos:

– A observação de como esses olhares dialogam na tentativa da produção de um composto. A dança tenta encontrar espaços de um composto na cena. Especificamente, na abordagem sobre gênero, é importante perceber como a sexualidade é atravessada e levada para a cena. Há na fala da recepção, uma crença na dança como território de maior transgressão. Um participante pergunta da plateia: o que transborda estas bordas do corpo? Outra pessoa pergunta: após os movimentos de junho, houve alguma mudança no modo com que as instituições lidam com essas práticas? Sem respostas definitivas, encerramos com uma frase dita por Peter Pál Pelbart: é preciso que o trem descarrilhe[7]].

 



[1] Trecho da citação de Châtelet.

[2] Expressão utilizada por Ana Kiffer nesta fala.

[3] Idem.

[4] Palavras utilizadas por Pelbart, nesta fala.

[5] Expressão de Pelbart utilizada nesta fala.

[6] A partir de uma citação de Preciado feita por Peter Pál Pelbart.

[7] Frase usada por Pelbart nesta mesa.

Relato crítico: Felipe Machado

Relato crítico: Felipe Machado


Seminário Bordas do Corpo

Mesa 3: Insurreições do corpo no contemporâneo

Peter Pál Pelbart (SP), Ana Kiffer (RJ), Jorge Vasconcellos (RJ), Tatiana Roque (RJ)

Mediação: Silvia Soter

As estratégias do capitalismo neoliberal e possíveis táticas de resistência e contra-hegemonia na contemporaneidade podem ser delineados como os eixos temáticos que guiaram as falas na terceira mesa do Seminário Bordas do Corpo: dança política e experimentação, Insurreições do corpo no contemporâneo, composta pelas professoras Ana Kiffer e Tatiana Roque, pelos professores Jorge Vasconcelos e Peter Pal Pelbart e com a mediação de Silvia Soter. Apesar de não versarem explicitamente sobre dança, o corpo em movimento apareceu de diferentes maneiras, com contornos e coreografias distintas, seja como instância controlável, ou como aquela que inevitavelmente escapa ao controle. Os entrelaces e as conexões entre corpo social e corpo individual se daria na imensa rede que os fluxos do capitalismo movimentam, como analisaram Gilles Deleuze e Félix Guattari no trabalho conjunto sobre Capitalismo e Esquizofrenia, o qual, explicitamente ou não, transpassou os discursos levantados.

Ana Kiffer abriu os caminhos do debate com uma epígrafe para cada um dos demais professores que dialogavam com as respectivas falas. Para Tatiana Roque, um trecho de François Châtelet sobre as recapturas perpetradas pelos poderes institucionais do Estado, e para Jorge Vasconcelos e Peter Pal Pelbart, duas citações de Antonin Artaud sobre modos de resistência – e existência (nos âmbitos coletivo e individual).

Tatiana Roque abordou a releitura à qual tem se dedicado o filósofo italiano Maurizio Lazzarato acerca do pensamento de Deleuze e Guattari e, particularmente, dos escritos de Guattari fora da parceria com Deleuze. Essa releitura procura dar conta de uma análise do atual estágio do capitalismo, dos reagenciamentos que efetua, as formas como se desdobra e captura os movimentos e as tentativas de produzir resistências; assim, mostra-se importante sobretudo na busca de novas ferramentas teóricas para diagnosticar o presente. No caso do Brasil, segundo Tatiana, o pensamento de Lazzarato teria muito a contribuir para se entender o momento presente e criar possibilidades de resistência, potencializando o efeito conturbador da irrupção recente de manifestações e protestos que tomaram o espaço público. Ela afirma que não se trata, como tornou-se usual argumentar, de um recrudescimento da ditadura militar na repressão violenta protagonizada pela Polícia Militar a tais manifestações, mas, antes, de uma reação inerente ao sistema neoliberal mesmo, que reflete uma forte recusa em reconhecer seu fracasso.

Para Tatiana, a principal questão que surge nesse contexto é pensar como se articulam, hoje, capitalismo e produção de subjetividade. Ela lembra que o princípio de que a produção de riqueza depende de uma atividade subjetiva abstrata já estava presente em Marx. Esta subjetividade, por sua vez, seria irredutível ao domínio da representação (tanto política quanto linguística). É precisamente essa concepção que é atualizada na produção teórico-crítica de Deleuze e Guattari e, mais recentemente, de Lazzarato.

Nesse sentido, Lazzarato propõe, a partir de Guattari, que o capitalismo opera, atualmente, no cruzamento entre dois dispositivos de poder: o de assujeitamento ou sujeição social e um mecanismo de servidão maquínica. O primeiro funciona ao produzir uma percepção de que nos equipamos de uma subjetividade individual que nos assigna uma identidade composta por categorias como sexo, profissão, raça, classe social e nacionalidade, operando uma distribuição de papeis na divisão social do trabalho para além das categorias opositivas de operário e proprietário dos meios de produção. Os papeis sociais, bem como as identidades, são produtivos por si mesmos na medida em que supõe-se que se estabeleçam “enquanto tais”.

Tal mecanismo torna-se evidente ao notar-se que, na inserção ao mercado de trabalho e nas formas de emancipação econômica do sistema neoliberal, o capital humano é imprescindível, acionando a necessidade dos indivíduos tornarem-se “empresários de si”, nos termos usados por Tatiana. A essência subjetiva da produção, nesse contexto, é a conjugação entre a força de trabalho e o trabalho sobre si.

Através e a partir das funções sociais e das identidades (que podem se dar para além ou aquém dessas funções), o sistema econômico e político capitalista opera, no tecido social, uma homogeneização, uma uniformização e uma centralização de códigos semióticos como as línguas e os gestos. Nesse sentido, nota-se como o corpo é o ponto de aplicação primordial desses processos, especialmente no controle dos hábitos e gestos que devem inserir-se em repertórios de linguagem determinados – o que estaria compreendido nas noções de biopoder e biopolítica propostas por Michel Foucault.

Tatiana aponta essa engrenagem como uma “fábrica semiótica” em que os trabalhadores devem adaptar-se às condições de poder: a aceitação (em grande parte) inconsciente dos papéis e das identidades é justamente o modo como se introjeta essa exigência do capitalismo. Essas identidades aparecem como significações dominantes: “mediações semióticas a partir das quais o capitalismo garante uma condição geral de trocas e de intercâmbio de papeis que funciona como uma moeda”.

Pode-se apontar esse aspecto como a razão pela qual até os desvios precisam ser calculados: ao mesmo tempo controlados e incitados a mostrarem-se, de modo a impedir, ao máximo, as consequências que seriam libertadoras e emancipadoras dos mecanismos de assujeitamento.

O segundo aspecto ou dispositivo pelo qual o capitalismo atua na produção de subjetividade, denominado por Guattari como servidão maquínica, servomecanismo ou servo-controle maquínico, é oriundo da área de engenharia do controle e da automação. O termo em francês, “asservissement”, refere-se tanto à ideia de tornar servo quanto a um sistema de regulação de entrada e saída por um mecanismo de retroalimentação, recurso de grande importância na cibernética. A eficácia de mecanismos como esse se dá por atuarem em uma dimensão ou âmbito pré-individual, infrapessoal, ou protossubjetivo, em que ainda não há uma subjetividade individuada ou uma distinção entre os elementos de um acoplamento humano–máquina, como é característico do capitalismo contemporâneo (vide a relação com aparelhos eletrônicos como o celular).

Nesse sentido, o mecanismo de servo-controle funciona por meio de uma dessubjetivação em que o indivíduo torna-se uma peça em uma engrenagem, componente de um agenciamento institucional que autorregula o capitalismo, tal como em um processo de retroalimentação.

A busca de termos em áreas distintas do saber (como a engenharia, a biologia, a medicina) que faz a ideia de “máquina” recorrente em Guattari e Deleuze, dá a ver a estratégia ou tática teórico-crítica operada nesse pensamento que recoloca e revê a tradição filosófica diante de novos problemas e da necessidade de novos conceitos.

Percebe-se o efeito desse “híbrido” entre humano e máquina, gerado pelos agenciamentos maquínicos, na proliferação de mecanismos de avaliação, característica de uma relação pré-individual com a máquina. De onde a dificuldade de enxergar e criar resistências a essas engrenagens pré-individuais, a esses diagramas e configurações em que as coisas e os elementos sociais são peças, engrenagens, uma vez que esses mecanismos solicitam, incitam, favorecem certas ações, certos gestos e pensamentos em detrimento de outros, afetando diretamente no comportamento afetivo, cognitivo e perceptivo dos indivíduos.

Assim, a articulação entre essas duas dimensões heterogêneas da subjetividade, individual e pré-individual (maquínica) é imprescindível à noção de propriedade – e, uma vez compreendido isso, a ideia de que “temos” um corpo entra em questão e pode ser desfeita: “talvez”, coloca Tatiana, “o corpo seja o corpo do mundo, e não o nosso”.

Portanto, a necessidade de se pensar um novo modo de ação política talvez passe por outra concepção de corpo que não se restrinja à noção de propriedade, devendo operar, ao mesmo tempo, contra esses dois dispositivos de controle das subjetividades para que se possa construir novos territórios existenciais apropriando-se desses agenciamentos maquínicos para além do servo-controle que os submete ao assujeitamento social e que esvazia a potência micropolítica. Não se deve ignorar, porém, o risco de que o capitalismo também se reaproprie dessas formas de resistência.

Nos debates subsequentes, Peter Pal Pelbart chamou a atenção para o fato de que esses movimentos de resistência, desterritorialização ou ações políticas nem sempre seriam resultado, necessariamente, de mobilizações, movimentos, mas também de desmobilizações, de suspensões do movimento. Afinal, seria preciso também sustar certa lógica do produtivismo da cultura capitalista. Nesse sentido, tais movimentos e suspensões se dariam de acordo com intensidades, necessidades e táticas específicas.

Dando sequência à fala de Tatiana, Jorge Vasconcelos buscou apontar uma das formas de resistência e contra-hegemonia que se têm produzido na cidade do Rio de Janeiro, os coletivos autonomistas de arte, como o ANARCOFUNK. Ele confessou lhe causar um grande incômodo ter de falar em um lugar como o Museu de Arte do Rio, uma vez que a construção do MAR se insere no processo de gentrificação da zona portuária que tem gerado graves consequências para a população local, tais como remoções e o aumento do custo de vida na região, que obriga muitos moradores a abandonarem-na (gerando, portanto, mais um espaço restrito a uma parcela privilegiada da população). Porém, Jorge partiu desse incômodo para falar, inclusive, de uma resistência a esse mesmo processo – a vivencia em comunidades anarquistas que criam atos de resistência de caráter estético-político.

Ele não se preocupou em determinar se o trabalho de tais coletivos é artístico, mas é certamente estético. Segundo Jorge, a partir das Jornadas de Junho, houve uma mudança ou inflexão nos atos de grupos como o ANARCOFUNK guiada por uma radicalização das ações diretas de caráter performativo. No entanto, ele mesmo questiona se um levantamento dos coletivos e das ações não seria uma espécie de “X9 acadêmico”, ao gerar recursos que podem abrir precedentes a possíveis capturas. Seria preciso, pois, resistir aos aparelhos de captura que o corpo da arte se colocou e ao empobrecimento da crítica que entra no sistema de retroalimentação, uma vez que essas ações mesmas se dão na contramão desse apaziguamento da crítica e da institucionalização da arte. Por outro lado, a investigação sobre esses coletivos talvez guarde sua importância justamente nisso, na busca de produzir contrapontos ou linhas de fuga aos aparelhos de captura da arte e ao empobrecimento da crítica.

Outro ponto levantado por Jorge diante desse cenário é um questionamento sobre as consequências de se descartar as instituições quando elas já são frágeis (como a arte e a crítica no Brasil). Como lidar, portanto, com essa tensão? Para ele, sua posição enquanto professor e enquanto crítico é precisamente a de fustigar esse fazer institucionalizado. Dando a ver as aberturas, as fissuras, talvez seja possível esse movimento, essas transformações, ou, nas palavras de Jorge, a criação de novas formas de sociabilidade. “É preciso ir para a rua, e ir para a rua é sair da Zona Sul, se desencastelar”, afirmou posteriormente, no debate, referindo-se ao modo como essa região acaba tornando-se o foco (um tanto elitizado e restrito) tanto da vida cultural no Rio de Janeiro quanto da crítica cultural e artística.

Se Tatiana Roque dedicou-se a uma espécie de mapeamento do capitalismo contemporâneo e suas transformações, tanto Jorge Vasconcelos quanto Peter Pal Pelbart privilegiaram o que foge, o que escapa ao controle das instituições e torna-se difícil de apreender. Assim, Peter recorreu ao pensamento de Beatriz Preciado, filósofa espanhola que recentemente assumiu o nome de Beto após um processo de transformação corporal autogerado pelo uso da testosterona em gel, ou “testogel”, como é chamada comercialmente (e cuja comercialização, aliás, é controlada e restringida pelo âmbito médico), empurrando o próprio corpo (ou isto que se entende como um corpo “próprio”) a um limite das categorias de gênero e sexo (masculino e feminino) através das próprias ferramentas de controle e produção de corpos normalizados.

Em Testo Yonqui, escrita híbrida entre diário, relato autobiográfico e produção teórica, Preciado relata a experiência de criar táticas de resistência às normas do sistema sexo-capital da modernidade cuja colonização dos corpos funciona pela naturalização das diferenças de sexo e gênero segundo uma concepção biológica do corpo, tanto a nível orgânico-fisiológico quanto genético.

Assim, coloca-se não só como resistência, mas também como linha de fuga ao corpo, nas palavras de Peter, que não aguenta mais tudo aquilo que o define ou constitui por fora e por dentro, isto é, ao adestramento e à disciplina perpetrados pelo sistema capitalista e inerentes a um saber médico-científico que ganhou vulto na modernidade. Porém, como lembrou, esse saber se insere em um histórico mais amplo de culpabilização e patologização do corpo que remonta à cultura cristã.

Na linha de pensamento nietzscheana de que um corpo é, primeiramente, um encontro com outros corpo, Peter propõe que se busque a força das fraquezas do corpo, ao invés de buscar as fraquezas das forças do corpo (ou, poderia-se dizer, ainda, do próprio corpo como força), extraindo-se, da impotência, potências superiores, ou tornar ativo o corpo a partir das passividades que o constituem. Tal seria, de fato, uma economia outra da dor e da impotência, outra relação da physis com o pathos para além da assepsia da cultura capitalista moderna.

Assim, o regime farmacopornográfico a que se refere Preciado permite uma molecularização do biopoder que age sobre o corpo tecnovivo: um “controle pop” em contraponto ao controle frio analisado por Foucault. É assim que Preciado vê a pílula anticoncepcional como um “panóptico comestível”. De maneira análoga, o testogel funcionaria como uma regulação farmacológica para manter a fronteira entre os gêneros, o que Preciado subverte com uma ação do que chama de “bioterrorismo de gênero”, isto é, o uso dos recursos médicos normalizadores para a desestabilização dos limites de gênero. Um movimento farmacopornográfico copyleft que torna o corpo uma plataforma, um biocampo tecnovivo que arranca os gêneros dos macrodiscursos, desterritorializa os corpos, em contraponto (ou, antes, como um desvio, uma interferência) à naturalização dos biocorpos como, por exemplo, das biomulheres, no uso da pílula anticoncepcional e na reposição hormonal.

A esse respeito, Silvia Soter lembrou a cantora Valesca Popozuda como um processo de automodificação corporal também pela testosterona, na produção de um corpo feminino que tampouco se pode dizer “natural” ou “biológico”. Essa observação faz notar que não se pode determinar uma única heteronormatividade (seriam várias? Ou a interferência na heteronorma não se dá apenas por corpos queer?).

Dialogando com a fala de Tatiana Roque, Peter coloca que isso consistiria, de fato, em um processo de desidentificação ou dessubjetivação ativa na contramão dos agenciamentos maquínicos – ou seja, não uma dessubjetivação produzida pelos dispositivos de poder, mas uma  resposta aos processos de assujeitamento ou sujeição social e à servidão maquínica em que somos inevitavelmente inseridos. A tática desenvolvida por Preciado seria, segundo Peter, a conjunção de experimentação e pensamento numa espécie de “psicodelia hedonista molecular”. Para ele, “Preciado mostra como ainda não vimos nada”.

Encerrando a fala que lhe coube, lembrou o dançarino butô Min Tanaka, por quem Guattari nutria grande admiração e encanto e que, através da dança, fazia, segundo Peter, do corpo individual, “um corpo multitudinal e telúrico”. Assim, ele vê a dança como um campo potente para mostrar que “ainda não vimos nada”.

 

 

Seminário Bordas do Corpo: Mesa 2


Cena, livro, corpo: encontros, desvios e tensões entre dança e a escrita

Relato crítico: Luciana Ponso

Relato crítico: Eliane Carvalho

Ficha Técnica

Concepção: Ana Kiffer, Flavia Meireles e Mariana Patrício

Direção de Produção e Produção Executiva: Bárbara Fontana

Captação e edição: Imagem Reverbera

Participantes do Seminário Bordas do Corpo: Alex Cassal (RJ), Hélia Borges (RJ), Jorge Vasconcellos (RJ), Laura Erber (RJ), Ligia Tourinho (RJ), Peter Pal Pelbart (SP), Sandra Meyer (SC), Tatiana Roque (RJ), Thereza Rocha (RJ/CE)

Mediadores do Seminário: Beatriz Cerbino (RJ), Paola Braga (RJ), Silvia Soter (RJ)

Relatores críticos: Claudia Canarim, Dally Scharwtz, Luciana Ponso, Eliane Carvalho, Clarice Zarvos, Felipe Machado.

Estagiária do curso de teoria em dança da UFRJ: Elizandra Souza

Edição de conteúdo do site : Sofia Caesar

Arte gráfica: Mariana Aurélio

Assessoria de Imprensa: Christina Martins / Armazém Comunicação

 

Temas de Dança


O site TEMAS DE DANÇA torna visível e acessível a pesquisa do projeto REESTRUTURANDO HISTÓRIAS DA DANÇA cujo recorte é a dança européia, norte-americana e brasileira a partir dos anos 60. Formalmente desde julho de 2012, o grupo de pesquisa (VINCULAR COM QUEM SOMOS), a partir de leituras e análise de vídeos, vem elaborando critérios que auxiliem a pesquisa em dança, mais especificamente, as relações entre pensamento, história, dança e corpo. A idéia é possibilitar tanto aos profissionais quanto aos estudiosos da dança um arsenal teórico e prático que contribua para a formação, produção e difusão em dança.

A necessidade de aprofundamento da pesquisa, teórica e prática, se afirma pela importância de disponibilizar, online, material textual e iconográfico que atenda às especificidades da dança enquanto arte cênica, dependendo da atualização no corpo do material pesquisado.  Nesse sentido, a pesquisa procurará sempre levar em conta a especificidade da relação entre dança e história, sua temporalidade própria, fazendo com que a pesquisa prática – investigando técnicas corporais criadas pelos artistas estudados – tenha a mesma importância da pesquisa teórica.

Ações do grupo de pesquisa:

– Aglutinar pesquisadores da área de História da Dança, possibilitando a troca, a atualização e o aprofundamento das questões pertinentes à esse campo de estudo. O grupo de pesquisa realizará dois encontros semanais.

– Adquirir material bibliográfico e audio-visual que serão destinados à Biblioteca da Escola Angel Vianna. A bibliografia se comporá tanto de publicações relativas à dança no Brasil e no Exterior quanto de publicações relevantes na área de História Brasileira e Mundial (do período compreendido pela pesquisa) e Filosofia (com ênfase na relação entre corpo e pensamento).

– Pesquisar fontes primárias (entrevistas, programas de espetáculos, registros audiovisuais) sobre a produção artística em dança no Brasil, no período compreendido pela pesquisa, assim como a reunião e leitura de material bibliográfico já publicado a esse respeito. Nessa tarefa contaremos com o apoio de uma assistente de pesquisa  uma estudante de graduação em dança.

– Realizar de cursos teórico e prático de iniciação e capacitação em História da Dança no CCO.

– Publicação online.  Com artigos produzidos pelas pesquisadoras e por outros pesquisadores convidados.

CONTRAPARTIDA DO PROJETO

O projeto REESTRUTURANDO HISTÓRIAS DA DANÇA realizou contrapartida que multiplica o alcance da pesquisa não só publicando seus resultados online, por meio deste site, mas também ajudando a formar um arquivo material, através de doação de livros para futuras pesquisas em lugar estratégico e de fácil acesso ao público interessado (Bliblioteca da Faculdade Angel Vianna e Centro Coreográfico do Rio de Janeiro). Além disso, como maneira de compartilhar dos resultados e metodologias desenvolvidas pela pesquisa, o projeto realizou um curso gratuito  no Centro Coreográfico da cidade do Rio de Janeiro destinado não só aos pesquisadores e artistas mas a qualquer público que se interesse.