Estudo Itinerante, oficina Ana Kiffer


Palestra dada pela pesquisadora Ana Kiffer, do grupo de pesquisa Temas de dança, como parte da primeira oficina do projeto ESTUDO ITINERANTE em abril de 2014, para o educativo e monitoria do MAR (museu de arte do rio).

Resumo:
A obra de Josephine Baker como ponto de partida para pensar mais amplamente o contexto histórico da Europa no início do século XX sob determinado crivo: a noção de Outro, de primitivo, de bárbaro, de animal. De que maneira Josephine Baker foi posta nesse “quadro” e como, por outro lado, ela explodiu determinado conceito de corpo naquele momento. Numa segunda parte Ana Kiffer pensa a relação do corpo com a nudez: como a sociedade ocidental acolhe ou repulsa o corpo nu. Por fim o grupo de pesquisa (Ana Kiffer, Flavia Meireles e Mariana Patrício) fazem uma passagem no que seria a relação entre corpo e dança, ou seja, qual o estatuto do movimento contemporaneamente e os discursos de esgotamento tanto da escrita quanto do movimento.

Estudo Itinerante, oficina Silvia Soter


Parte da terceira oficina – direcionada aos estudantes da escola técnica de dança Adolfo Bloch (FAETEC) em maio de 2014 – promovida pelo grupo de pesquisa Temas de Dança dentro do projeto Estudo Itinerante.

Nesta oficina, a pesquisadora convidada Silvia Soter desenvolve noções de centro e periferia a partir de um exercício proposto aos alunos e a partir das obras: O Lago dos Cisnes (Marius Petipa), Isabel Torres (Jerome Bel), Beach Birds (Merce Cunningham) e H2 (Bruno Beltrão). Um passeio por essas obras como exemplos de como se pode tratar a noção de centro e periferia na dança.

Estudo Itinerante, oficina Beatriz Cerbino


Parte da segunda oficina promovida pelo projeto Estudo Itinerante, do grupo de pesquisa Temas de dança, direcionada aos cursos de graduação de bacharelado e teoria de dança da UFRJ.
Como pesquisadora convidada, Beatriz Cerbino trata da questão da autoria, propriedade e bem comum na dança.

Historiografia da dança: mitologias

Historiografia da dança: mitologias


Bailarino flamenco Israel Galvàn

Bailarino flamenco Israel Galvàn

Para fugir ao cânone: Uma das mitologias que a modernidade criou para definir a instável noção de autonomia da arte foi a distinção entre arte popular e arte erudita. Na dança essas oposições se traduzem na diferenciação feita por Laban entre dança social e dança pura:
“O movimento, em dança pura, não necessita adaptar-se aos caracteres, às ações, às épocas e as situações (…) A execução no palco de danças sociais características de um período histórico, do statu s social do povo, da ocasião e localidade da dança não pode ser considerada como dança pura”(LABAN, Rudolf. O domínio do movimento).
Mitologias são importantes, mas atualmente torna-se premente pensar em uma distinção entre individual e coletivo não redutora, porém mais complexa. Uma saída é a idéia de solidão que o crítico Georges Didi-Huberman encontra no trabalho do bailarino flamenco Israel Galván. Israel estabelece com a imponente tradição andaluza uma relação que não é de coesão, nem de identificação, mas de conflito e tensão, como um toro solitário em uma arena. (Didi-Huberman, Georges. “Le danseur des solitudes”)

Dança moderna ou pós-moderna


Essa é uma discussão que ocupou boa parte do debate sobre a história da dança nos Estados Unidos no final da década de 80. A discussão começou quando a crítica Susan Manning lançou um artigo na Revista “Theater Drama Review” em 1989 questionando a periodização feita pela historiadora Sally Banes e reproduzida até hoje.

No importante livro Terpsichore in Sneakers de Sally Banes a autora defende que a dança pós-moderna americana, começou nos anos 60 com o movimento da Judson Dance, do qual faziam parte Trisha Brown, Yvonne Rainer, Robert Morris, Robert Rauschemberg, Steve Paxton, entre outros. No entanto, segundo Banes,  falar em dança pós-moderna, significa apontar uma ruptura com o que era conhecido como dança moderna americana cujo principal nome era Martha Graham.

Paradoxalmente, segundo essa autora, a dança pós-moderna norte americana empenhava a bandeira da arte moderna nas outras esferas artísticas como a literatura e as artes visuais. Ou seja a dança pós-moderna estaria insuflada por valores modernistas, os quais Banes reconhece como:

– a revelação das qualidades formais essenciais da dança

-a separação dos elementos formais

-a abstração das formas

– a eliminação de referências externas

Manning acusa Banes de estabelecer um cânone rígido e ignorar que a dança moderna desde Isadora Duncan já tinha sim inspirações modernistas, como por exemplo buscar o que seria a essência da dança, o que garantiria a sua autonomia.

Historiografia

Historiografia


Angelus Novus de Paul Klee.

Angelus Novus de Paul Klee.

“Não existem fatos, só existem interpretações” com essa frase Nietzsche destruía com seu martelo as pretensões cientificistas dos historiadores para quem  a escrita da história seria uma forma transparente de organizar cronologicamente as grandes narrativas. Escrever a história, historiografar, é também criar histórias, privilegiando determinados recortes e pontos de vista. Nesse Tema vamos questionar algumas dessas narrativas históricas a respeito da dança confrontando-as e pondo-as em diálogo.
São objeto de nossa pesquisa a observação de diferentes maneiras de historiografia e a discussão de como elas nos servem. A riqueza das novas abordagens historiográficas abre um imenso leque de possibilidades de análise, permitindo ao pesquisador estudos comparativos entre artistas e obras de diferentes períodos históricos, construindo novos parâmetros e critérios. As duas noções aqui expostas são também discutidas na dissertação de mestrado de Flavia Meireles no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais na UFRJ.
A primeira delas retoma a noção de uma “historiografia performativa” como um modo de proceder, formulada na tese de doutorado da pesquisadora Eleonora Fabião (NYU, Performance Studies, 2006), em que a autora defende uma prática histórica anti-metafísica e contra-totalitária, na direção de uma experiência dos fatos fenomenológica e conscientemente corpórea. Tal proposição quer observar os fatos, os documentos sobre os fatos, a linguagem e a arte da performance sem ignorar ou resolver as lacunas entre eles, ou seja, sem resolver a inerente assimetria entre experiência, arquivo e narrativas históricas. Ao contrário, o esforço é de assumi-las como parte constituinte do escrever histórico, a fim de historiografar “sem criar experiências e expressões artísticas monumentais ou colonizadoras” (FABIÃO, 2006:24. Tradução de Flavia Meireles).
A segunda abordagem historiográfica que nos parece importante considerar se refere ao contexto histórico, através da noção de “conexão espectral”. Esta abordagem se concretiza nas palavras do pesquisador Grei Marcus em seu livro “Lipstick traces”, de 1989:
“O contexto histórico é o resultado de momentos que parecem nada deixar para trás deles mesmos, nada, exceto o mistério de conexões espectrais entre pessoa muito distanciadas no espaço e no tempo, mas falando, de alguma maneira, a mesma língua”.
Buscamos, neste espaço, levantar outras possibilidades historiográficas que tensionem e multipliquem as possibilidades de se fazer história hoje.

PS: A imagem que acompanha este post é do quadro Angelus Novus do pintor suiço Paul Klee (1879-1940). O quadro foi uma das inspirações para o filósofo alemão Walter Bejamin formular as suas teses sobre o conceito de história. Nelas, Benjamin critica a historiografia que acredita poder resgatar e recuperar o passado tal qual ele foi, enquanto que para o filósofo o passado como uma imagem que não se deixa capturar e que foge a cada momento.

“A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido (…) Pois irrecuperável é cada imagem do presente que se dirige ao presente, sem que esse presente se sinta visado por ela (…)” (BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História. in: BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Vol 1. São Paulo: Brasiliense, 1994)

Com Benjamin poderíamos dizer que a história é um gesto de dança.