O corpo que se apresenta nos anos 1960 e o corpo paradoxal


Segundo vídeo temático produzido pelo grupo de pesquisa Temas de Dança e fruto do projeto Estudo Itinerante de 2014, contemplado com o I Fomento à Cultura Carioca 2013. Além de oficinas e o seminário Bordas do Corpo, este projeto realizou videos de registros do seminário, entrevistas com pesquisadoras convidadas, videos de aulas e três videos temáticos. O primeiro ficou a cargo da professora e pesquisadora Ana Kiffer e este segundo video foi elaborado pela pesquisadora Flavia Meireles. O presente vídeo elabora como nas artes e na dança, a partir dos anos 1960 o corpo se apresenta e retoma a noção de corpo paradoxal, do filósofo português José Gil.

A corporalidade na cultura contemporânea: da representação à produção


Apresentação em linhas gerais do trabalho de uma das pesquisadoras do Temas de Dança sobre escrita e corpo que ela desenvolve há dez anos. Introdução ao pensamento e recortes do trabalho de Ana Kiffer sobre uma virada, nos anos 60 e em todos os campos do conhecimento, da noção de representação à uma produção de corporalidades. Ana passeia por campos da psicologia, filosofia, arte e cultura para desenvolver esse argumento.

Seminário Bordas do Corpo: Mesa 3


Insurreições do corpo no contemporâneo

Relato crítico: Felipe Machado

Relato crítico: Clarisse Zarvos

Ficha Técnica

Concepção: Ana Kiffer, Flavia Meireles e Mariana Patrício

Direção de Produção e Produção Executiva: Bárbara Fontana

Captação e edição: Imagem Reverbera

Participantes do Seminário Bordas do Corpo: Alex Cassal (RJ), Hélia Borges (RJ), Jorge Vasconcellos (RJ), Laura Erber (RJ), Ligia Tourinho (RJ), Peter Pal Pelbart (SP), Sandra Meyer (SC), Tatiana Roque (RJ), Thereza Rocha (RJ/CE)

Mediadores do Seminário: Beatriz Cerbino (RJ), Paola Braga (RJ), Silvia Soter (RJ)

Relatores críticos: Claudia Canarim, Dally Scharwtz, Luciana Ponso, Eliane Carvalho, Clarice Zarvos, Felipe Machado.

Estagiária do curso de teoria em dança da UFRJ: Elizandra Souza

Edição de conteúdo do site : Sofia Caesar

Arte gráfica: Mariana Aurélio

Assessoria de Imprensa: Christina Martins / Armazém Comunicação

 

Seminário Bordas do Corpo: Mesa 2


Cena, livro, corpo: encontros, desvios e tensões entre dança e a escrita

Relato crítico: Luciana Ponso

Relato crítico: Eliane Carvalho

Ficha Técnica

Concepção: Ana Kiffer, Flavia Meireles e Mariana Patrício

Direção de Produção e Produção Executiva: Bárbara Fontana

Captação e edição: Imagem Reverbera

Participantes do Seminário Bordas do Corpo: Alex Cassal (RJ), Hélia Borges (RJ), Jorge Vasconcellos (RJ), Laura Erber (RJ), Ligia Tourinho (RJ), Peter Pal Pelbart (SP), Sandra Meyer (SC), Tatiana Roque (RJ), Thereza Rocha (RJ/CE)

Mediadores do Seminário: Beatriz Cerbino (RJ), Paola Braga (RJ), Silvia Soter (RJ)

Relatores críticos: Claudia Canarim, Dally Scharwtz, Luciana Ponso, Eliane Carvalho, Clarice Zarvos, Felipe Machado.

Estagiária do curso de teoria em dança da UFRJ: Elizandra Souza

Edição de conteúdo do site : Sofia Caesar

Arte gráfica: Mariana Aurélio

Assessoria de Imprensa: Christina Martins / Armazém Comunicação

 

Seminário Bordas do Corpo: Mesa 1


Corpo e dança: conjunções e disjunções

Relato crítico: Dally Schwarz

Relato crítico: Alexandre Maia

Ficha Técnica

Concepção: Ana Kiffer, Flavia Meireles e Mariana Patrício

Direção de Produção e Produção Executiva: Bárbara Fontana

Captação e edição: Imagem Reverbera

Participantes do Seminário Bordas do Corpo: Alex Cassal (RJ), Hélia Borges (RJ), Jorge Vasconcellos (RJ), Laura Erber (RJ), Ligia Tourinho (RJ), Peter Pal Pelbart (SP), Sandra Meyer (SC), Tatiana Roque (RJ), Thereza Rocha (RJ/CE)

Mediadores do Seminário: Beatriz Cerbino (RJ), Paola Braga (RJ), Silvia Soter (RJ)

Relatores críticos: Claudia Canarim, Dally Scharwtz, Luciana Ponso, Eliane Carvalho, Clarice Zarvos, Felipe Machado.

Estagiária do curso de teoria em dança da UFRJ: Elizandra Souza

Edição de conteúdo do site : Sofia Caesar

Arte gráfica: Mariana Aurélio

Assessoria de Imprensa: Christina Martins / Armazém Comunicação

Batalha do passinho

Batalha do passinho


Um dos exemplos onde a dança dialoga diretamente com o contexto social adolescente do Rio de Janeiro é a recente dança do passinho. Duelo onde os participantes inventam modos de dançar e, por isso, ganham status junto ao grupo, a dança foi tema de recente documentário e também já é usada em escolas municipais como meio de integração entre os alunos. Segundo o diretor do filme “Batalha do passinho”, Emílio Domingos,  “o passinho é a sofisticação do sampler, da colagem representada na corporalidade (sic)”. De forte inclinação antropofágica pela “deglutição” de tudo o que pode ser dança e música, a dança do passinho parece ser um complexo e instigante tema também para pesquisadores em dança.

Em relação à dança como status social, lembremos que já em Luís XIV, o rei Sol, dançar era sinônimo de ter educação e símbolo de pertencimento a classes sociais. A dança, nestes dois contextos (o do passinho e o da corte)  cumpre essa função mediadora e simbólica entre as pessoas, aparecendo de modo particular em cada um dos casos. No que se refere à invenção de movimento, a dança do passinho reinventa-se a todo momento, dando conta dos fluxos acelerados dos jovens e da internet, já que também virou hit na rede.

Vale a pena estudar esse caso em detalhes. aqui, seguem algumas referências:

http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/musica/2013/03/19/321824-diretor-de-a-batalha-do-passinho-compara-danca-a-colagens-do-funk#0

http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2013/03/noticias/cultura/1416694-danca-do-passinho-para-metro-do-rio-faz-sucesso-na-internet.html

No youtube existe uma infinidade de vídeos onde se pode ver e até aprender a dança.

http://www.youtube.com/watch?v=3oktcJN8Roc&feature=player_embedded

Materialidade: como um corpo que dança constrói sentido?

Materialidade: como um corpo que dança constrói sentido?


Ao procurar definir a especificidade da dança contemporânea Laurence Louppe aponta para a ênfase dada ao corpo, e sobretudo ao corpo em movimento, que passa a ocupar simultaneamente as posições de sujeito, objeto e ferramenta de seu próprio saber. Essa transformação que a dança contemporânea opera requer que se pense em outros modos de apreensão e expressão do sentido que não obedecem mais às separações entre significante e significado, forma e conteúdo que estruturam a linguagem discursiva e que supõe a distinção clara entre sujeito e objeto.

Se o corpo é ao mesmo tempo significante e significado, ou melhor, se embaralha essas categorias, questionand0-as, como pode construir sentido? Sentido aqui pensado através do filósofo Jean-Luc Nancy como algo que se endereça a um outro que constrói uma relação.

Em sua tese de doutorado, Mariana Patrício analisa como a discussão sobre a materialidade pode representar uma pista para pensar a construção de sentido do corpo, investigando a reflexão de Judith Butler a respeito dessa questão.

Judith Butler em Bodies that matter chama a atenção para a dificuldade em se pensar a questão da materialidade como um tradicional objeto de estudo. Na base dessa dificuldade está  a forma como o ocidente estabeleceu relação entre o feminino e a materialidade. A origem dessa associação é etimológica e encontrada na forma como o termo matéria (matter) está relacionado à matrix (útero) (Butler, 2009:43). A matéria é o espaço de inscrição do significado, receptáculo que Platão chamou, no Timeu, de Chôra. A matéria é aquilo sem o qual não há mundo, mas que, por sua vez, não pode nomear o mundo, ganhando visibilidade ao adquirir uma forma conferida a partir de um princípio externo. Como superfície de inscrição, a matéria é infinitamente penetrável ainda que informe: ela é o irrepresentável que torna possível toda a representação

O feminino não tendo rigorosamente forma, morfologia ou contorno: definido como aquilo que contribui à delimitação das coisas, sendo ele próprio indiferenciado, sem limites.

Como pensar, então, formas através das quais a  materialidade produz discurso?

Butler sugere que se pare de pensar a matéria como “referente bruto, superfície ou tábula rasa”, mas como um princípio de transformação que supõe e induz um futuro. Um processo de materialização que ao longo do tempo se estabiliza e produz o efeito de fronteira e de superfície.Seria importante pensar a matéria não como massa amorfa, mas como princípio de transformação.

A dança contemporânea ao investigar modos de construção de sentido do corpo em movimento necessariamente politiza esse processo de materialização no qual os valores e significados instituídos podem ser questionados ou recriados.

Na foto a artista portuguesa Vera Mantero no espetáculo Uma misteriosa coisa, disse o E.E. Cummings em  homenagem à Josephine Baker. A homenagem leva Mantero a enfrentar em sua composição vários questionamentos éticos, como cita André Lepecki em seu instigante texto sobre essa performance:“Mantero teve que superar diversos obstáculos para criar sua dança: como uma mulher europeia, de um país que até 1974 via sua missão como a de ‘colonizar pessoas e terras’ retratar, evocar e dançar no nome e no corpo de uma dançarina afro-americana já falecida?  (Andre Lepecki, Exhausting dance: performance and the politics of movement).

Como resultado Mantero apresenta seu corpo transformado em uma imagem fantasmagórica, meio mulher, meio animal, meio drag-queen, meio preta, meio branca.A performance de Mantero encena então a necessidade de enfrentar a história, sem cair na armadilha do mimetismo e da representação, o que despotencializaria completamente a força pertubadora da dança de sua homenageada.

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Pensamento do corpo/corpo do pensamento


Quando em 1968 a coreógrafa estadounidense Yvonne Rainer encerra o texto do programa do seu espetáculo The mind is a muscle (A mente é um músculo) com a seguinte frase: meu corpo permanece como a realidade que resiste (my body remains the enduring reality) ela está abrindo uma questão ao invés de proporcionar uma resposta. Que corpo é esse que está em jogo na dança? De que forma ele pode ser pensado como uma realidade que resiste?

Se o corpo resiste através de sua materialidade irredutível é porque essa materialidade não se deixa capturar ou apreender nem pela linguagem nem pelo pensamento. Ou seja, o corpo força o pensamento a enfrentar um limite.

Nesse sentido, seria preciso distinguir um pensamento do corpo de um pensamento sobre o corpo.

O pensamento sobre o corpo seria aquele que o transforma em um objeto capaz de ser dissecado e reconhecido – como um anatomista diante de um cadáver. Nesse modo, entretanto, o corpo não pára de desaparecer, como diz o filósofo José Gil no livro Metamorfoses do Corpo: quanto mais sobre ele se fala, menos ele existe por si próprio (Gil, 1997:13). Ou seja, a materialidade que resiste do corpo não é equivalente à organicidade do corpo que pode ser pesada, medida e classificada, mas algo vivo que sempre escapa à essas classificações.

Diante dessa “materialidade em fuga”, o pensamento do corpo é aquele que enfrenta um limite no qual a linguagem já não pode determinar o que é um corpo, onde a própria questão “o que é um corpo” deixa de fazer sentido.

Isso não quer dizer que o corpo emudeça o pensamento: pelo contrário, é justamente diante dessa fronteira irredutível que o pensamento se constitui como uma força que atravessa o senso comum propondo novas formas de sentir e estar junto. Pois, ao suspender a possibilidade da linguagem de definir o que é o mundo, suspendem-se também as relações de poder que estão configuradas nesse mesmo mundo. Logo, o pensamento do corpo é sempre político, mas não está nunca no lugar do instituído, está sempre, ele próprio, em suspensão.

O pensamento do corpo embaralha as oposições entre passividade e atividade, entre afetar e ser afetado, entre movimento e repouso, entre forma e matéria, todas elas entreligadas na constituição do pensamento ocidental desde Platão e Sócrates. Segundo essa tradição, a materialidade do corpo é o lugar da passividade que só toma forma e se movimenta através da ação de uma força externa.

Ao afirmar que ainda não sabemos o que pode o corpo, Espinosa está reconhecendo que a possibilidade do corpo de ser afetado é um lugar potente, na qual a distinção entre passividade e atividade adquire outros sentidos.

Como a dança se relaciona com esse pensamento?

A relação entre dança e filosofia é ao mesmo tempo estreita e distante. Estreita pois, cada vez mais, assistimos a espetáculos de dança que se aproximam e se inspiram no discurso filosófico. Ao mesmo tempo, como o nota Fréderic Pouillaude, a filosofia parece desconhecer a prática concreta da dança mesmo quando se interessa por ela. Textos inteiros, como A Alma e a Dança de Paul Valéry, para citar um exemplo célebre, não fazem qualquer menção a artistas ou obras. Falam da dança como uma arte transcendental que jamais se atualiza no presente: “No lugar dessas marcas empíricas ausentes, apresenta-se uma palavra vazia, comum, geral e abstrata, na mesma medida que a sua maiúscula: a Dança” (Pouillaude, Le desoeuvrement chorégraphique)

Esse apagamento da prática empírica revelaria, ainda segundo Pouillaude, além do desconhecimento dos filósofos, uma dificuldade intrínseca da dança em se constituir como objeto de arte tal qual o conhecemos. Essa fragilidade se expressaria pela dificuldade de escrita de uma obra coreográfica que parece sempre intrinsecamente dependente da presença daquele que a criou. Ou seja, a dança na sua impossibilidade de repetir coloca em xeque a noção de obra. A consequência dessa posição desafiadora que a dança coloca para o objeto de arte é que, com isso, as próprias práticas artísticas são excluídas da reflexão estética.

Sem pretender aqui esgotar essa discussão, é interessante pensar de que modo tanto a dança como o que chamamos de pensamento do corpo forçam a recriar e questionar as fronteiras reconhecidas entre arte, pensamento e política.

Nesse sentido, falar em Corpo do Pensamento implica em reconhecer que a suspensão da lógica da significação (da possibilidade de definir o que é um corpo) não implica que possamos transformá-lo em uma entidade imaterial, neutra, sem peso nem cor, nem história. Pelo contrário, implica em considerá-lo como algo que só existe e só resiste (para continuar com Rainer) NO mundo e em relação com as forças históricas e políticas em jogo. Como apontam Gilles Deleuze e Félix Guattari no capítulo do livro Mil Platôs, Como criar para si um corpo sem órgãos:

Desfazer o organismo nunca foi matar-se, mas abrir o corpo a conexões que supõem todo um agenciamento, circuitos, conjunções, superposições e limiares, passagem e distribuições de intensidade, territórios e desterritorializações (Deleuze e Guattari, 2004: 22).